Chip no cérebro: Elon Musk revela primeiros passos de plano para conectar mente e máquina

Chip no cérebro: Elon Musk revela primeiros passos de plano para conectar mente e máquina

Elon Musk é um homem cheio de ambições. Depois de criar carros movidos a eletricidade e uma empresa que quer retomar o ciclo de viagens ao espaço, ele quer mais: possibilitar uma forma do cérebro humano conversar com uma inteligência artificial, de forma integrada – com a inserção de uma conexão que seja simples e indolor como uma cirurgia de remoção de catarata. Na noite dessa terça-feira, 16, a Neuralink – empresa na qual ele investiu US$ 100 milhões para cumprir seu plano – apresentou os primeiros detalhes desse projeto. 

No evento, a empresa descreveu um robô, semelhante a uma máquina de costura, que poderá implantar fios ultrafinos de forma profunda no cérebro das pessoas. A empresa afirma que o sistema eventualmente será capaz de ler e escrever grandes quantidades de informação. Mas, como muitos dos outros empreendimentos de Musk, como naves espaciais ou túneis futuristas, um dos maiores desafios pode ser que seus cientistas correspondam à sua grande visão.

Para usar a solução da Neuralink atualmente, cirurgiões teriam que fazer furos no crânio para implantar os fios. Mas no futuro, eles esperam usar um feixe de laser para perfurar o crânio com uma série de pequenos orifícios.

Em um comunicado na segunda-feira, os executivos da Neuralink reconheceram que tinham um “longo caminho à frente” antes de poderem começar a oferecer um serviço comercial. Mas eles disseram estar prontos para discutir publicamente o seu trabalho. Musk não estava na reunião.

Apesar disso, o executivo tem tido um ativo papel na tentativa de ajudar a resolver os desafios de engenharia enfrentados pela Neuralink, de acordo com Shivon Zilis, diretor de projeto da Neuralink. A empresa recebeu US$ 158 milhões em financiamento e tem 90 funcionários.

Uso médico para tecnologia futurista

Embora as visões mais fantasiosas para um computador cerebral possam estar muito distantes, Musk pode ter encontrado um potencial uso médico, como ajudar os amputados a recuperar a mobilidade ou ajudar as pessoas a ouvir, falar e enxergar. A empresa espera começar a trabalhar com seres humanos já no próximo ano.

A companhia planeja trabalhar com neurocirurgiões na Universidade Stanford e possivelmente com outras instituições para realizar experimentos iniciais. Jaimie Henderson, professora de neurocirurgia em Stanford e especialista no tratamento da epilepsia e do uso de um tratamento conhecido como Estimulação Cerebral Profunda, é conselheira do Neuralink, segundo Max Hodak, presidente da Neuralink e um dos fundadores da empresa.

Em uma demonstração em um laboratório de pesquisa Neuralink segunda-feira, a empresa mostrou um sistema conectado a um rato de laboratório, lendo informações de 1.500 eletrodos – 15 vezes melhor do que os sistemas atuais implantados em humanos. Isso é suficiente para pesquisas científicas ou aplicações médicas.

Cientistas independentes alertaram que os sucessos em animais de laboratório podem não se traduzir em humanos e que testes em humanos seriam necessários para determinar a promessa da tecnologia.

Recentemente, os dados mais avançados para estudos em animais vieram da empresa belga Imec e sua tecnologia Neuropixels, que tem um dispositivo capaz de coletar dados de milhares de células cerebrais separadas, de uma só vez.

Acredita-se que a capacidade de capturar informações de um elevado número de células e, em seguida, enviá-las sem fio a um computador para análise posterior é um passo importante para melhorar a compreensão básica do cérebro.

Musk é conhecido por suas ideias e negócios mirabolantes

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Técnica diferenciada

Uma das técnicas que diferencia a Neuralink é que ela coloca linhas flexíveis de eletrodos nas proximidades dos neurônios, as minúsculas células que são os pilares básicos do cérebro.

Os fios são colocados com o uso de finas agulhas, e o chamado sistema de visão por computador ajuda a evitar os vasos sanguíneos na superfície do cérebro. A técnica envolve a inserção de um feixe de fios, cada um com cerca de um quarto do diâmetro de um fio de cabelo humano.

Os fios flexíveis são, na verdade, sanduíches finos de um material parecido com celofane que isola fios condutores que ligam uma série de minúsculos eletrodos, ou sensores, muito semelhantes a um fio de pérolas.

Eles podem ser inseridos em diferentes locais e em diferentes profundidades, dependendo do experimento ou aplicação. Pesquisas médicas e terapia podem se concentrar em diferentes partes do cérebro, como centros de fala, visão, audição ou movimento.

A flexibilidade dos fios Neuralink seria um avanço, disse Terry Sejnowski, professor do Francis Crick no Instituto Salk de Estudos Biológicos, em La Jolla, Califórnia.

Desafios para o futuro

No entanto, Sejnowski observou que os pesquisadores do Neuralink ainda precisavam provar que o isolamento de seus fios poderia sobreviver por longos períodos em um ambiente cerebral, que tem uma solução salina que deteriora muitos plásticos.

Apesar de uma ostentosa introdução de gala para a noite de terça-feira na Academia de Ciências da Califórnia, onde a empresa planeja distribuir um trabalho de pesquisa inédito, a Neuralink certamente terá muita concorrência.

Durante a última década, o Pentágono financiou pesquisas tanto para ciências básicas do cérebro como para desenvolver sistemas de controle robóticos que permitiriam o controle do cérebro de dispositivos protéticos.

Pesquisadores com financiamento da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa conseguiram criar interfaces que permitiram que tetraplégicos manipulassem independentemente os braços de um robô para realizar tarefas manuais como segurar um copo e beber.


Estadão