9 de fevereiro, feriado em Piancó 93 anos da passagem da Coluna Prestes

9 de fevereiro, feriado em Piancó 93 anos da passagem da Coluna Prestes

Coragem e amor

 

Edvaldo Leite de Caldas Júnior, advogado

 

 

O que faz um mártir é a fé e a coragem, a decisão de estar ao lado de uma causa que pode lhe custar a própria vida, e mesmo assim você faz opção por ela.

 

         A causa de padre Aristides Ferreira da Cruz era Piancó. Ele decidiu-se por Piancó, pela defesa desta terra e do seu povo, sendo sabedor de que sofreria muito e que a sua decisão poderia ser um sacrifício de vida.

 

         A política em Piancó sempre foi acirrada. Padre Aristides tomou conhecimento disso logo nos primeiros anos de seu ministério pastoral nesta terra.

 

         Por aqui chegou nos idos de 1902, trazendo consigo um intenso ardor missionário e o desejo de ajudar a paróquia de Piancó a crescer espiritualmente e a prosperar materialmente.

 

         No entanto, após dez anos de intensa atividade missionária e pastoral, o padre Aristides passou a discordar do sistema político então vigorante em Piancó, o do “quero, posso e mando”, que reinava há muitos anos, sob a tutela da família Leite Ferreira.

 

         Daí por diante, sua vida tornou-se uma contínua luta política pelas causas de Piancó e as calúnias e estórias criadas pelos seus adversários e inimigos políticos não paravam de surgir, uma atrás da outra, até que, em 1912, por decisão de D. Adauto, então Bispo da Paraíba, o padre Aristides Ferreira da Cruz foi afastado do seu ministério sacerdotal.

 

         Padre Manoel Otaviano, que o sucedeu na função, conta em seu livro “Os mártires de Piancó”, que o padre Aristides não recebeu com rebeldia a decisão do seu superior, D. Adauto, a quem julgava ser um homem de boa fé, mas que teria se deixado levar pelos interesses escusos dos seus “inimigos políticos”.

 

         Afastado das funções, o padre Aristides Ferreira da Cruz, homem de temperamento forte, que não era de “levar desaforo pra casa”, corajoso e destemido, tornou-se o principal adversário político dos Leites Ferreira em Piancó, que passou a combater politicamente até o fim trágico de sua vida, retirada barbaramente por homens da Coluna Prestes.

 

         Conta-nos o padre Manoel Otaviano que o rompimento político do padre Aristides com a família Leite Ferreira, notadamente com o Dr. Felizardo Leite, então Deputado Federal, deu-se do seguinte modo (merece transcrição):

 

“Quando se deu o rompimento entre padre Aristides e Dr. Felizardo, era essa a situação política de Piancó: um só rebanho e um só pastor. O padre mediu o tamanho do inimigo que ia enfrentar e as armas de que dispunha para o atacar. Corajoso, decidido, lançou-se ao campo da luta e desenvolveu sua propaganda contra a família Leite, nos povoados, nos Distritos, nas fazendas, nos jornais, na tribuna popular, em qualquer parte, como quem estava disposto a sacrificar a própria vida. (...) Gritava na praça pública que era preciso acabar, em Piancó, com a escravidão política, com o regime do quero, posso e mando. Foi aos poucos fazendo adeptos, congregando elementos, firmando-se em seus chefes, muitos dos quais ocupavam cargos de relevo no Estado e na capital do País, despertando certa confiança do povo tímido e desconfiado. Tratava-se de um padre que sempre merecera a confiança do povo. Isso influiu, grandemente, para a formação do incipiente partido que ele esperava fundar e derrubar o predomínio dos Leites, nessas paragens sertanejas. (...) O Dr. Felizardo que vivia mais no Rio de Janeiro do que em Piancó, no desempenho de seu mandato de seu mandato de deputado federal, deixava, na sua terra natal, os seus representantes, gente de sua confiança, na sede e nos Distritos. Nem sempre eles respeitavam as ordens do chefe. Houve abuso de poder. Perseguições, calúnias, ameaças, não só contra o padre como contra alguns amigos que mantinham sua fidelidade ao partido. Quando Felizardo voltou, já encontrou a situação bem agravada. Não era, pois, mais possível restabelecê-la ou emendá-la com a mesma solidez anterior. Preferiu arrostar a responsabilidade de tudo e, com os amigos que precipitaram os acontecimentos, aceitar o combate. (...) Padre Aristides não tinha, ao que parece, intenções de romper com o valoroso chefe piancoense, tanto que este, ao chegar do Rio, recebeu ainda a visita do padre, em companhia de alguns amigos. Julgavam que Felizardo, inteirado da verdadeira situação de Piancó, desaprovasse a má orientação de seus representantes e fizesse a coisas voltarem a seus lugares. Tudo, porém, resultou em contrário. O Dr. Felizardo recebeu mal o padre e lhe exprobou, testa a testa, a sua traição. Estava informado de que ele andava trabalhando contra seus amigos e, portanto, contra sua orientação política, em Piancó. Isto foi dito em tom de ameaça, voz bradada, semblante carregado e olhos chispantes. Padre Aristides, porém tinha estopim nos nervos. Explodiu. Rebateu, no mesmo tom, as ameaças, disse-lhe da razão de seu afastamento de seus prepostos no Município e acentuou que dali por diante, iria combater a prepotência dos Leites. De seu ex-compadre e de seu ex-amigo não queria ou dispensaria qualquer ato de tolerância para com ele. A arena era vasta e ele não temeria o combate. Tomou do chapéu, desceu os batentes da casa grande e, ao pisar a calçada, voltou-se, com os olhos em chamas, para o seu ex-chefe que o olhava por uma janela fronteiriça, bradando-lhe, afoitamente: alea jacta est, isto é, a sorte está lançada, que nenhum dos presentes compreendeu o que ele quis dizer com esse misterioso latinório” (Otaviano, Manoel. Os Mártires de Piancó – Campanha Carlos Prestes. Editora Teone. João Pessoa – PB: 1954, págs. 54/57).

 

                   E foi assim o início da vida política do padre Aristides Ferreira da Cruz em Piancó: destemor e coragem.

 

                   Tronou-se, daquele episódio em diante, o maior rival do “domínio político” dos Leites. Foi Deputado Estadual e sempre usou a tribuna para argumentar, com firmeza, combatendo a oligarquia política que amordaçava Piancó.

 

                   Na tribuna da Assembleia Legislativa, era um intrépido orador. Seus pronunciamentos chamavam a atenção de todos e causavam grande agitação no parlamento estadual. Era firme nas palavras, sincero, eloquente, inabalável.

 

                   O padre Manoel Otaviano conta que “certa vez, rebatendo aparte de seus opositores, na Assembléia, no mais aceso dos debates, afirmou: ‘em Piancó há somente dois chefes: eu que superintendo os destinos do velho Município sertanejo e Felizardo Leite, oposicionista, que me combate. Não nego e nunca neguei o seu valor político. Já disse a meus amigos que, se eu morrer primeiro, aceitem a sua orientação e não procurem outro, ali, porque não existe. Tudo mais é figura de papelão, como este pobre diabo (e apontava para José Parente) que é como prego: tem cabeça, mas não tem juízo. Gargalhadas e protestos tumultuavam o ambiente parlamentar, obrigando o presidente a suspender a sessão por algum tempo” (Ob. cit., págs. 93/94).

 

                   Quando a Coluna Prestes tendia passar por Piancó, nos idos de 1926, padre Aristides Ferreira da Cruz era, então, o chefe político de maior envergadura no Município. Tinha o apoio de Epitácio Pessoa, figura de grande prestígio na política paraibana e nacional.

 

                   Segundo informações que o padre Aristides havia recebido, nos dias que antecederam a passagem da Coluna por Piancó, os revoltosos (os homens da Coluna) eram menos de duzentos homens e estavam desmuniciados, ou seja, não passariam por Piancó com a intenção de travar qualquer combate.

 

                   Talvez, pensava ele pelas informações, quisessem apenas comida e mantimentos, para prosseguir com a marcha da Coluna pelo país.

 

                   Depois do trágico acontecimento, confirmou-se que essa especulação não correspondia à verdade. Os homens da Coluna talvez mais de seiscentos, municiados, experimentados no combate e forjados na luta.

 

                   O fato é que, nos dias que antecederam a invasão da Coluna Prestes a Piancó, muitos piancoenses, incluindo os familiares do padre Aristides, se retiraram da cidade, por precaução.

 

                   Mas o Padre Aristides decidiu ficar. Não era de seu feitio fugir à luta. Segundo as narrativas da história, e são muitas, o padre Aristides tomou a resolução de ficar em Piancó com seus amigos mais próximos, para receber os homens da Coluna Prestes, não com intenções de embate, mas para que a cidade não ficasse sem defesa na hipótese de um possível ataque.

 

                   Bem antes disso, nos idos de 1922, suponho, o padre já havia deixado Piancó no episódio conhecido como “Boi Lavrado”, em que os adversários políticos do padre o acusaram, falsamente, de haver furtado um boi no Distrito de Santana dos Garrotes.

 

                   O padre sempre fora conhecido como um homem honesto, incapaz de cometer tal deslize. O ex-vigário de Piancó não desceria a tamanha desfaçatez...

 

                   No entanto, esse falsa acusação rendeu uma grande confusão, tanto na Assembleia Legislativa, como em Piancó, onde os ânimos se exaltaram muito, de modo que, em virtude das provocações decorrentes deste insidioso fato, e de uma música que fizeram em torno do assunto, chamada “Boi Lavrado”, cantada “rua acima e rua abaixo” pelos oposicionistas, para provocar os brios do padre, rendeu não menos do que vinte e seis horas de tiroteio, que culminaram no incêndio do sobrado onde residia e na sua necessária fuga, para não morrer, protegido por alguns amigos.

 

                   Certamente, custasse o que custasse, o padre Aristides não seria homem de sair de Piancó uma segunda vez.

 

                   Permaneceu em sua última residência, ainda conservada em bom estado pela família do senhor Adalberto Lopes, onde há registros das marcas de balas daquele fatídico 9 de fevereiro, reunido com os amigos mais próximos, dentre eles o então Prefeito da cidade, João Lacerda Moreira de Oliveira.

 

                   Segundo o registro de Padre Manoel Otaviano, colhido do Dr. Moreira Lima, que foi Secretário de Luís Carlos Prestes, havia piquetes organizados para a defesa da cidade em vários locais e na casa do Padre Aristides Ferreira da Cruz.

 

                   O número de policiais que guarneciam a cidade, além de alguns residentes que aqui ficaram, era insignificante. Não eram bastante para enfrentar a Coluna. Segundo narrativa do Dr. Moreira Lima, Secretário de Prestes, eram aproximadamente sessenta soldados de polícia e perto de cem “cangaceiros” (expressão por ele usada) e algumas pessoas de responsabilidade.

 

                   Mas essa informação, contestada pelo padre Manoel Otaviano, ficou muito aquém da realidade. Segundo o padre, eram apenas “doze soldados e trinta e dois paisanos, todos mais ou menos municiados”. Seria a luta de Davi contra muitos Golias.

 

                   Ao adentrar Piancó, segundo registro do padre Manoel Otaviano colhido do Dr. Moreira Lima, Secretário de Carlos Prestes, os representantes da linha de frente da Coluna (homens de vanguarda, como se dizia), recebida em Piancó com hostilidade, e teriam sido enganados por uma falsa bandeira branca, com aceno de paz, ostentada em piquete, na entrada da cidade (precisamente no Conselho Municipal), onde funcionou até pouco tempo o Instituto Lourdinha Montenegro, hoje Secretaria de Agricultura do Município.

 

                   Esse piquete, provavelmente composto só de policiais, alguns dos poucos que guarneciam a cidade, era comandado pelo sargento Manoel Arruda.

 

                   A Coluna não espera nenhum gesto de hostilidade por parte de Piancó, no entanto, com a morte do capitão Pretinho, que vinha à frente da Coluna, e era muito querido por todos, os revoltosos se enfureceram e invadiram Piancó com arroubos de violência.

 

                   Luís Carlos Prestes não participou da invasão, permanecendo com o grosso das forças da Coluna, segundo o padre Manoel Otaviano, no lugar chamado Riacho do Conselho, “à sombra de frondosas oiticicas”.

 

                   Ainda segundo o relato precioso do padre Manoel Otaviano, “ao ter conhecimento do ocorrido, o chefe rebelde, indignado, julgando-se traído, mandou arrasar a vila traiçoeira”.

 

                   Nesse ponto, há dúvidas e até um pouco de controvérsia sobre se essa ordem teria mesmo partido de Luís Carlos Prestes ou de Cordeiro de Farias, que comandou os invasores de Piancó. Deixemos a investigação da história para os doutos no assunto. O fato é que, nos registros da família do padre Aristides, especialmente de um folheto em sua memória póstuma, que encontrei nos pertences de Joana Ferreira da Cruz (Tia Joanita), o qual se encontra comigo até hoje, está assim escrito, no verso da fotografia do padre: “PADRE ARISTIDES, O MÁRTIR DE PIANCÓ *18 – 6 – 1875 +9 – 2 – 1926. Morto selvagemente na cidade de Piancó na Paraíba, por um grupo de soldados sob as ordens de Cordeiro de Farias. Pela graça de Deus seu cruel martírio se transformou em benção e proteção para os sofredores”.

 

                   Nos escritos do culto padre Manoel Otaviano, tão logo ocorreu a invasão de Piancó e o tiroteio tomou conta da cidade, o padre Aristides teria dado, sem sucesso, ordens para cessar fogo. Narra ainda que, da casa do padre, só partiram os primeiros tiros quando os homens da Coluna invadiram e tomaram a Cadeia Pública da cidade, então localizada onde hoje encontra-se a agência do Banco do Brasil, no centro de Piancó.

 

                   Contudo, àquela altura dos acontecimentos, Piancó ardia em fogo, e nada mais havia a fazer, a não ser fugir ou continuar resistindo aos homens da Coluna.

 

                   O padre Aristides e seus amigos tomaram a segunda resolução, e pagaram um preço altíssimo, o da própria vida.

 

                   Antes que os homens da Coluna invadissem a cidade, o padre e seus amigos foram aconselhados, por um dos resistentes de Piancó, que conseguiu sair do piquete da cadeia em direção à sua residência, de nome Pedro Inácio Liberalino (pai de Eurides Liberalino, conhecido como mestre Eurides, ambos de saudosa memória), a deixarem urgentemente o local.

 

                   A resposta do padre, contudo, foi categórica, no sentido de afirmar que “estava disposto a morrer e não correr”. Ou seja, naquela ocasião, o padre Aristides e todos os que combatiam ao seu lado não tinham mais nenhuma dúvida de que, se fosse necessário, deveriam dar as suas próprias vidas na defesa de Piancó. E assim o fizeram...

 

                  A luta prosseguiu até às três horas da tarde, quando invadiram a casa do Padre Aristides Ferreira da Cruz e o prenderam, juntamente com os seus amigos mais próximos: João Lacerda Moreira de Oliveira (então Prefeito de Piancó), seu filho Osvaldo Lacerda Moreira de Oliveira (comerciante), Manoel Clementino de Souza (escrivão do Distrito de Aguiar), seu filho Antonio Clementino de Souza (escrivão da Coletoria Federal), Rufino Soares (guarda municipal), Jovino Quelé (agricultor), Hostílio Gambarra (distribuidor em juízo), Joaquim Ferreira da Silva, José Lourenço, João Lourenço e Antonio Leopoldo (agricultores).

 

                   Não satisfeitos com a prisão dos defensores de Piancó, os homens da Coluna Prestes atearam fogo à casa do padre Aristides, e logo em seguida arrastaram o padre e seus companheiros para um barreiro que havia abaixo da casa, precisamente nas imediações da Rua Velha, como hoje é conhecida.

 

                   No barreiro, os amigos do padre foram executados, uma a um, pelos homens da Coluna Prestes, com requintes de crueldade. Fizeram o padre Aristides ser o último dos mortos e assistir a todo o tormento dos seus amigos, que agonizavam naquele lugar.

 

                   Antes de morrer, o padre pediu aos seus algozes para rezar um Ato de Contrição, como sinal de arrependimento pelos seus pecados. Disse aos homens da Coluna Prestes o padre Aristides Ferreira da Cruz, segundo a narrativa do padre Manoel Otaviano: “Sou sacerdote e não devo morrer sem pedir perdão a Deus de minhas grandes culpas” (Ob. cit., pág. 121).

 

                   O seu pedido derradeiro não foi atendido. Tão logo cessaram suas palavras, os homens da Coluna disseram, como resposta ao seu clemente pedido, “degola este assassino de nossos camaradas”, ceifando ferozmente a vida do padre Aristides, cortando-lhe as carótidas.

 

                   O sangue do padre Aristides Ferreira da Cruz e dos que com ele se encontravam, amigos e defensores de Piancó, jorrou pelo chão desta terra sofrida, e Piancó entrou assim, de maneira trágica, nos anais da história do Brasil e do mundo, como a cidade que resistiu, bravamente, por seu destemido povo, aos homens da Coluna Prestes.

 

                  Os homens da Coluna Prestes, ao invadirem Piancó, incendiaram todas as repartições públicas e saquearam o comércio local, deixando um rastro de sangue e carnificina na cidade, manchando, desta forma, os ideais mais sublimes da Coluna, que lutava por justiça social num Brasil de muitas e dolorosas desigualdades, que ainda persitem.

 

                   O martírio do Padre Aristides e seus companheiros é um acontecimento inspirador, emblemático para todos os piancoenses, que ficará para sempre em nossos corações, em nossa memória. Constitui, ainda, uma nódoa que nunca desaparecerá dos registros da Coluna Prestes, aviltando os seus primeiros ideais.

 

                   O martírio de que falamos é o da coragem e do amor, próprio daqueles que são dotados de firmeza e abnegação.

 

                   O dia 9 de fevereiro é feriado em Piancó, decretado pela Lei Municipal nº 963, de 19 de maio de 2003, em memória aos mártires e defensores desta cidade.

 

                   Quantos de nós, a exemplo deles, já foi capaz de dar o seu sangue, a sua vida, por amor a Piancó e na defesa dos interesses desta terra e do seu povo?

 

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Nota explicativa: O presente texto foi escrito de forma despretensiosa, com base em registros históricos colhidos do livro “Os Mártires de Piancó – Campanha Carlos Prestes”, de autoria do padre Manuel Otaviano, publicado pela Editora Teone, em João Pessoa – PB, em 1954, com livre adaptação em alguns trechos, apenas à título de cooperação, por ocasião dos 93 anos da morte do padre Aristides Ferreira da Cruz e defensores de Piancó, em 9 de fevereiro de 2019.