Senado mantém maioria governista, mas terá oposição reforçada

Senado mantém maioria governista, mas terá oposição reforçada

A renovação de um terço da composição do Senado Federal não alterou o quadro numericamente favorável para o Palácio do Planalto na Casa, uma vez que a maioria dos assentos continuará ocupada por parlamentares da base governista. Porém, na avaliação de políticos e especialistas ouvidos pelo G1, a oposição estará mais forte devido à entrada de nomes de peso.

Com as eleições de 2014, o PSDB, maior partido da oposição, reduziu sua bancada de 12 para 10 senadores, mas entre eles estão figuras tradicionais como os ex-governadores José Serra (SP) - que venceu Eduardo Suplicy (PT-SP) em São Paulo e tirou a vaga do PT -, Tasso Jereissati (CE) e Antonio Anastasia (MG).

Eles se juntarão a Aécio Neves (MG) e Aloysio Nunes (SP), que disputaram as eleições presidenciais de 2014 e retornaram ao Senado respaldados pelos mais de 51 milhões de votos obtidos no segundo turno do pleito contra a presidente reeleita Dilma Rousseff.

Já o DEM ampliou o número de assentos de quatro para cinco, incorporando o ex-deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), que foi uma das principais vozes da oposição da Câmara dos Deputados. Além disso, o PPS ganhará um representante com José Antonio Medeiros (MT), suplente do governador do Mato Grosso, Pedro Taques.

Os governistas PMDB e o PT, porém, de longe mantêm a maioria das cadeiras. O PMDB terá 18 senadores em exercício e o PT, 14. Ambos dividirão o comando das principais comissões e os cargos mais importantes da Mesa Diretora, sendo que o PMDB indicou Renan Calheiros (PMDB-AL) como candidato à reeleição. Ainda assim, especialistas destacaram deterioração da relação entre ambos.

Oposição 'combativa'
O senador eleito Ronaldo Caiado disse ao G1 que o Senado, nos próximos quatro anos, será mais "combativo". Como integrante da oposição, prometeu "escancarar" as "falsas promessas" feitas pela presidente durante campanha eleitoral.

Ele previu inclusive que senadores aliados poderão descumprir orientações do Palácio do Planalto. "A casa caiu. Eu acredito que as pessoas hoje já não vão emprestar mais seu currículo, sua história, seu prestígio político para respaldar atitudes que são irresponsáveis e desconectadas. Inclusive os senadores da base", declarou Caiado.

O líder do DEM, senador José Agripino (RN), também destacou a "deterioração" na relação da base aliada que, somada aos novos nomes da oposição, colocam o Senado no "caminho da desagregação".

"Esse copo vem enchendo há muito tempo. O PR e o PDT se aliam ao governo apenas eventualmente e a relação do PT com o PMDB não é satisfatória, há divisões. Nesse mesmo momento, a oposição recebe reforços interessantes, que são vozes combativas e de argumento com qualidade", disse Agripino.

Debate qualificado
O vice-líder do PMDB, Romero Jucá, disse que os senadores experientes da oposição "são muito bem vindos", mas cobrou celeridade na aprovação de projetos que o país precisa, como as reformas política e tributária e um novo pacto federativo.

"O debate tem que ser feito de forma qualificada mesmo, mas também célere, porque o Brasil tem pressa em fazer mudanças", declarou Jucá.

O professor de Ciência Política da UFRJ Charles Pessanha afirmou que uma oposição ativa é sempre capaz de impor derrotas ou atrasos para o governo, mas ponderou que, atualmente, "quem faz oposição no Brasil é a imprensa". "Porque os políticos acabam precisando ceder para viabilizar seus projetos", disse.

 Na opinião de Leonardo Barreto, doutor em Ciência Política pela UnB, os principais "sócios" do governo, PT e PMDB, "não estão se dando bem". Ele lembrou, porém, que Aécio Neves e José Serra "não se bicam" e deverão disputar espaço para as eleições presidenciais de 2018.

"O Serra tem uma capacidade de pautar a imprensa muito maior que a do Aécio, então vai ser uma disputa surda para tentarem, em termos de visibilidade, se viabilizarem em 2018", afirmou Barreto. Para o especialista a maior dificuldade do governo federal no Senado está no caráter centralizador de suas decisões.

"O que irrita o Congresso é ele ter que aprovar as coisas sem ter sido chamado antes para discutir", disse. "Esse é um governo que tradicionalmente se relaciona mal com os parlamentares e o motivo principal é a centralização exagerada de políticas públicas. Não divide o jogo", concluiu.

 

Interlocução com o Planalto
O vice-líder do PT no Senado, Jorge Viana (AC), concordou que é preciso "melhor interlocução entre Palácio e Congresso". "Uma coisa que os senadores reclamam é dessa falta de interlocução não só com o Palácio, mas com as demais áreas", disse. O petista, porém, espera que a oposição não leve para a Casa o debate eleitoral. "Espero um duro embate, mas que não traga aquele clima fratricida da eleição. O desafio do Senado é acertar a mão na agenda política", afirmou.

Romero Jucá disse que o PMDB precisa "ajustar a sintonia fina política com o PT e com o Planalto", mas negou que o caminho para isso seja negociação de cargos no governo federal.

"Não é cargo, é entendimento político, traçar linhas e diretrizes de desenvolvimento. Acho que é preciso o PMDB e o PT viverem um novo momento de entendimento, de confiança e ação. O país não pode ficar paralisado e o PMDB dá sustentação política para o governo avançar", afirmou Jucá.

 

 

 

 

G1