Recomendação da OMS reacende disputa sobre aedes transgênico

Recomendação da OMS reacende disputa sobre aedes transgênico

A recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde), nesta semana, para que os países testem mosquitos transgênicos para combater a expansão do vírus da zika reacendeu uma disputa entre os defensores da estratégia e os que veem nos organismos geneticamente modificados um perigo ao ambiente e à saúde pública.

Cientistas, ambientalistas e interessados em produzir o Aedes aegypti transgênico se dividem sobre a questão. Aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), em 2014, uma linhagem de mosquitos machos, desenvolvida pela multinacional de origem britânica Oxitec, aguarda desde então sua liberação para comercialização. A Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) diz que ainda discute "como enquadrar o produto".

Solto no ambiente, o macho transgênico da Oxitec cruza com fêmeas selvagens e produz descendentes que morrem ainda no estágio larval, antes de poderem transmitir o vírus da zika ou dengue.


VALE A PENA?

Veja argumentos sobre o uso dos mosquitos


A FAVOR

Machos transgênicos não transmitem a dengue, zika nem a chikungunya

Segundo a fabricante, os genes adicionais nos aedes machos não produzem toxinas nem alergênicos em animais ou humanos

Diminui a população selvagem de Aedes aegypti e a probabilidade de transmissão dos vírus da dengue, zika e chikungunya

Após ser solto, vive de dois a quatro dias, e não se perpetua no ambiente.




CONTRA

Não há informações suficientes sobre o comportamento do mosquito modificado no ambiente, segundo especialistas

O uso causaria dependência econômica do fornecedor, uma vez que para o controle da população de mosquitos selvagens seria necessária a constante introdução do transgênico

Não existem testes que comprovem a interação do Aedes aegypti modificado com vírus de outras doenças

Para o biólogo e pesquisador convidado do Laboratório de Engenharia Ecológica da Unicamp José Maria Gusman Ferraz, que fez parte do CTNBio, faltam informações sobre o comportamento do mosquito no ambiente. "A liberação foi feita de forma precipitada e com vários pontos a serem esclarecidos", diz ele. "Eles morrem, é isso que acontece [no ambiente]", diz a bióloga Margareth Capurro, que coordena o desenvolvimento de uma linhagem transgênica na USP.

Margareth também fez a avaliação dos resultados em um dos primeiros testes com o mosquito da Oxitec, em Juazeiro (BA). "O resultado é satisfatório. É a melhor linhagem que a ciência pode desenvolver? Não. Mas funciona."

Desde 2011, testes com o OX513A –a linhagem da Oxitec– são realizados no país por meio de projeto-piloto, já que, oficialmente, a comercialização não está liberada. Duas localidades em Juazeiro, uma em Jacobina, na Bahia, e Piracicaba (a 160 km de SP), têm resultados positivos.

Segundo a Oxitec, a redução da infestação chega a 99%. Cláudio Fernandes, gerente de negócios da empresa, diz que o mosquito é um produto pronto e que apenas esperam o aval da Anvisa para a comercialização. "Nesse momento estamos testando os métodos de liberação."

A estimativa é que mais de 20 milhões desses mosquitos tenham sido soltos no Brasil –a maior quantidade já usada em um único país.


PROCURA

A orientação da OMS deve acelerar esse processo. A Bahia pediu neste ano a suplementação orçamentária de R$ 12 milhões à União para expandir as áreas em teste. No Estado está a fábrica da MoscaMed, organização social que testa os transgênicos e que deve investir ainda em aedes estéreis por radiação.

O governo de Mato Grosso do Sul diz que está analisando a viabilidade e aplicação do método na região. No Recife, epicentro dos casos de zika e microcefalia, a prefeitura também mantém negociação com a empresa.

Em Piracicaba, os testes devem ser levados para a área central da cidade após bons resultados em um bairro. Mas enfrentam a reação de ambientalistas que acionaram a Promotoria para que os resultados sejam apurados.

"A OMS diz que mais testes de campo são necessários. Também defende avaliação de risco. O recado vale para a CTNBio, que liberou com base em resultados feitos em só duas localidades e sem avaliação de risco", afirma Gabriel Fernandes, agrônomo e assessor técnico de associação de estímulo à agricultura familiar e agroecologia."Espero que a Anvisa exija essas informações", complementa.

Segundo o órgão, "é importante destacar que, até o momento, nenhuma agência do mundo tomou posição sobre este tipo de produto".





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