Professor da UEPB propõe debate aberto para construir futuro da Instituição

Professor da UEPB propõe debate aberto para construir futuro da Instituição

Em texto, o professor-doutor do curso de Relações Internacionais da UEPB, Carlos Enrique Ruiz Ferreira, propõe uma reflexão e análise a situação da UEPB, que passa por crise.

 Para o professor, é preciso discutir os temas fundamentais a instituição antes da crise interna e com o Governo Estadual.

Leia:

"Uma outra UEPB é possível, por uma Reforma Universitária

Carlos Enrique Ruiz Ferreira 

Como todos sabemos – e repetimos como um mantra – os momentos de crise são momentos ímpares para a reflexão e posterior crescimento. É assim na vida individual, familiar, e também o é nos âmbitos sociais e políticos, nas instituições, desde as mais locais até as nacionais e internacionais.

Como também todos sabemos vivemos uma crise interna na UEPB e também uma crise institucional entre o Governo e a Universidade (por mais que estejam interligadas, são duas crises, não nos enganemos). Mas o problema quiçá mais agudo não seja o “passar pela crise”, mas a ausência daquilo que é mais fundamental para “sobreviver” e “superar” uma crise: o processo reflexivo, a análise, a crítica. Ficamos em uma situação débil, portanto, quando uma Universidade não consegue produzir aquilo que se espera dela: reflexão, críticas e propostas de políticas públicas e universitárias. Vamos mal. Para um observador atento bastará analisar como foram as comemorações dos 50 anos, no ano passado, da UEPB e da UNICAMP, e também da UFBA, que completou seus 70 anos. Na UEPB não tivemos um singelo debate, apenas inauguramos uma praça. A UNICAMP e a UFBA, por outro lado, contribuíram à Filosofia, Ciência e Tecnologia não só de seus estados, mas a nível nacional, com debates fulcrais para a Educação superior brasileira contemporânea e seus desafios. 

Enfim, se existem críticas contundentes e coerentes direcionadas ao Governo do Estado, por outro lado foi o Governador que teve que, em alto e bom som, nos dar uma lição de casa. E talvez essa tenha sido a maior possibilidade de entendimento manifestada nestes dois meses de greve em que vivemos. O que faremos com isso? Temos altura para responder? Vamos iniciar esse debate para sair da crise que nos assola?

Na última audiência pública do Orçamento Democrático, que teve lugar em Campina Grande, o Excelentíssimo Sr. Governador Ricardo Coutinho abriu uma “porta” significativa para a UEPB; inaugurou-se um ato de responsabilidade. Disse ele: “Eu topo discutir a Universidade, eu quero discutir a UEPB”. Neste momento, como em toda hospitalidade – como nos ensinou Homero com a Odisseia – tudo mudou.

Frases como estas deveriam ser consideradas e honradas tanto por parte do Magnífico Reitor Antonio Guedes quanto por parte do sindicato em greve. Mas temos capacidade intelectual e vontade real de resolver a crise da UEPB? Acontece que pelas regras mais antigas da cultura universal, depois de realizado um convite, teria lugar uma resposta de igual forma responsável. Mas, até o momento não se bradou um som por parte da Reitoria ou do sindicato.

“Claro, vamos discutir a UEPB”, deveríamos falar em alto e bom som. E de pronto chegaríamos à questão central, imperativa, urgente: Qual Universidade, no Estado da Paraíba – financiada pelo povo paraibano e que a ele serve –, queremos? Para responder a tal pergunta atilado seria considerar algumas variáveis fundamentais para compor uma análise. Portanto, qual universidade queremos diante de: a) nossas especificidades regionais e locais; b) os nossos talentos e expertises técnicas e acadêmicas; c) as demandas de desenvolvimento econômico, social, cultural e ambiental do Estado e do Governo; d) as demandas em face aos desafios contemporâneos, locais e globais, de vão desde a defesa e promoção dos direitos humanos (hoje, em boa parte codificados, na Agenda 2030 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), até as adequações de cursos e curricula ao novo mercado de trabalho e às inovações das Tecnologias de Informação e Comunicação, oriundos da globalização. 

Em suma, quais são os grandes tópicos que devem nortear, ao fim e ao cabo, uma Reforma Universitária na UEPB?

Devemos ter em conta que, a partir das demandas existentes e das análises sobre o período contemporâneo (na Paraíba, no país e no mundo) possivelmente cheguemos à necessidade de reestruturar, por exemplo, nossos cursos de graduação e muitos curricula. Dou um exemplo imediato: recobra algum sentido a UEPB não dispor de créditos obrigatórios em suas diversas licenciaturas para que nossas alunas e alunos alfabetizem pessoas nas mais diversas cidades e regiões em que se localizam nossos campi? Que aporte estamos dando para uma das necessidades mais urgentes na Educação paraibana?

Temos o dever de pensar e repactuar a Universidade com o governo e a sociedade civil. A UEPB faz muito, não tenhamos dúvidas. Temos contribuições ímpares na área de atendimento à saúde, a partir de nossas professoras, programas, clínicas e laboratórios. Somos responsáveis pela formação de pelo menos 60% das guerreiras professoras e professores da rede pública do Estado. Na outra ponta, temos pesquisas com impactos científicos que são reconhecidos nacional e internacionalmente pelos pares. São muitas as qualidades e virtudes e aportes da UEPB para a sociedade. A UEPB tem um valor inquestionável e histórico. Mas podemos e devemos mais. Precisamos nos reformar. Temos a possibilidade de dar um salto de qualidade na Educação Pública na Paraíba. Mostremos, então, a que viemos.

É chegada a hora de aproveitar essa oportunidade, essa porta que se abriu, e que passemos a refletir e criar uma agenda consistente de análises e debates públicos (com diversos setores da sociedade civil) tendo como mote “qual a UEPB que queremos neste século XXI?”. Precisamos superar a crise."

 

 

 

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