Previsão do FMI de crescimento de 0,3% 'parece pessimista', diz Mantega

Previsão do FMI de crescimento de 0,3% 'parece pessimista', diz Mantega

A previsão de crescimento do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 0,3% para a economia brasileira em 2014 – se confirmada, a segunda pior expansão desde 1998 – "parece pessimista", segundo avaliação feita pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, nesta terça-feira (7). A expectativa anterior do FMI era de uma alta do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 1,3% para este ano.

 

"É verdade que tivemos um primeiro semestre de crescimento mais fraco, mas estamos observando recuperação no segundo semestre. Temos vários indicadores que mostram aceleração moderada a partir de julho", disse o ministro a jornalistas. Mantega acrescentou que a estimativa oficial do governo de crescimento do PIB neste ano continua em 0,9%, e uma possível revisão será feita somente em novembro, no próximo relatório do orçamento.

O mercado financeiro, no entanto, é ainda mais pessimista que o FMI: segundo dados do boletim Focus, a expansão de 2014 deve ficar em apenas 0,24%.

O ministro disse que não irá a Washington (Estados Unidos) nesta semana para reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) por conta do segundo turno das eleições. "Precisamos estar todos aqui. Farei alguns comentários que serão repetidos pelo Cozendey [secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda]. Tombini [presidente do BC] também estará na reunião", declarou.

Crescimento maior no segundo semestre
De acordo com Mantega, há sinais de recuperação no segundo semestre, como, por exemplo, o aumento de 13,7% na produção de automóveis em setembro deste ano, na comparação com agosto, ao mesmo tempo em que a prévia do PIB do Banco Central teve uma alta de 1,5% em julho – a maior expansão mensal em seis anos. Segundo ele, a venda de materiais de construção também está crescendo, assim como as vendas no varejo avançaram em setembro.

"Está havendo retorno do crédito a partir da flexibilização do BC, diminuindo compulsório. O crédito está retornando muito gradualmente a economia brasileira, o que deverá levar a um aquecimento moderado até o fim do ano", disse o ministro da Fazenda.

Segundo ele, no primeiro semestre deste ano, quando a economia brasileira entrou em "recessão técnica", houve "problemas internos", como a seca, que gerou impacto na inflação, e também externos, com a economia desacelerando no mundo - o que gera menos espaço para exportações brasileiras. "Existe uma solidariedade no mundo. Você não vende aqui e eu não vendo ali. Falta mercado. Você não tem para quem exportar", declarou o ministro.

'Frustração' com economia mundial
De acordo com ele, "há uma frustração com o desempenho da economia mundial", pois a previsão do FMI para o crescimento da ecomomia mundial também foi revisado para baixo - embora em proporção bem menor do que no caso do Brasil.

"A única economia avançada que tem um desempenho melhor são os Estados Unidos, em segundo lugar o Reino Unido, mas com sinais contraditórios. Os demais avançados frustraram expectativas. A União Europeia, o Japão não estão crescendo o previsto. O FMI diz que o primeiro semestre foi desapontador em termos de crescimento e isso diz respeito também aos emergentes. Todos crescemos menos no primeiro semestre", declarou Mantega.

Mercados 'espertos'
Questionado sobre a alta da Bolsa de Valores, registrada após o candidato tucano Aécio Neves passar para o segundo turno, e a queda do dólar, Mantega declarou que os mercados "são muito espertos".

"Visam ganhar sempre. Se ele puder causar uma turbulência que favorece a ele, ele vai causar turbulência. No primeiro turno, já tinha gente tentando influenciar o mercado com pesquisa eleitoral. Eu acho bom quando a bolsa sobe, quando o câmbio fica mais estável, seja lá qual for a razão porque isso acontece. Mas em todas eleições tem volatilidade de câmbio e de bolsa", declarou ele.

Na avaliação do ministro, a volatilidade registrada neste ano é "normal". "É diferente do que tivemos em 2002, quando tivemos uma volatilidade excepcional. Depreciação muito forte do dólar [que chegou perto de R$ 4]. A diferença é que a economia brasileira é muito mais sólida do que em 2002. Naquela época, era uma volatilidade que representava fragilidade da economia, que não tinha reservas e devia para o FMI. Essa é a diferença.", acrescentou ele.

'Fantasmas do passado'
O ministro da Fazenda também aproveitou para atacar a oposição ao ser interpelado por jornalistas sobre a declaração da presidente Dilma Rousseff de que os brasileiros não querem mais "os fantasmas do passado" e que o PSDB "governou para um terço da população, abandonando os que mais precisam".

Segundo ele, Dilma estava se referindo à possibilidade da volta de uma política [econômica] "conservadora neoliberal". "Uma volta ao passado quando prevaleciam taxas de juros muito altas. É só ver o que foi praticado no passado. Taxa de juros real média de 95 a 2002 é de 15% ao ano. Me preocupa muito que o mesmo gestor da política monetária [Armínio Fraga, apontado como ministro da Fazenda de Aécio Neves] possa voltar e vá querer derrubar a inflação com choque monetário como foi feito no passado", declarou Mantega, acrescentando que uma taxa desta magnitude "acaba com o mercado da construção". "Ninguém vai querer aplicar em imóveis se pode ganhar aplicando em títulos públicos".

Segundo ele, um aumento forte dos juros provocaria "recessão" na economia. "Poderá baixar a inflação, mas não adianta nada, ou fazer uma política fiscal [de gastos públicos] contracionista [corte de despesas]. O que que é política conservadora neoliberal? Uma política monetária [definição dos juros] e política fiscal austera. Uma taxa de juros alta e aumentar o primário [economia para pagar juros da dívida]. Desconfio que tem gente que gostaria de cortar programas sociais. Teríamos aumento do desemprego. Uma volta ao passado. Acredito que a população brasileira não vai querer", declarou.

Questionado sobre a resposta do candidato Aécio Neves à presidente Dilma Rousseff, de que o que assusta são os "monstros do presente", como inflação alta, recessão e corrupção, Mantega declarou que a dívida externa vai terminar este ano em US$ 330 bilhões, patamar considerado baixo por ele, estando menor do que as reservas internacionais de US$ 375 bilhões, e com desemprego em 5,4% – patamar também baixo. "É um privilégio para o Brasil. Temos um programa de investimentos em infraestrutura em andamento", declarou o ministro.


 

G1