População sofre sem luz e telefone em cidade atingida por cheia no Acre

População sofre sem luz e telefone em cidade atingida por cheia no Acre

 "Uma vida para conseguir e um segundo para destruir", diz a empregada doméstica Rosilene Rodrigues, de 24 anos. Ela é uma das vítimas da cheia do Rio Acre no município de Brasiléia, distante 232 km de Rio Branco. A maior na história da cidade. Nesta quarta-feira (25), as águas do Rio Acre atingiram a marca de 15,26 metros e a população sofre com a falta de energia elétrica, internet e telefonia. 

São ao menos 13 bairros afetados pela enchente. O acesso a cidade é feito apenas por barcos. Residências, comércios, agências bancárias, prédios públicos como secretarias, fórum, escolas e mais de 90% da cidade foram atingidos. Também não há sinal de telefone, a água potável está sendo disponibilizada pela prefeitura e a alimentação pelo governo estadual. Os prejuízos ainda não foram calculados, de acordo com a Defesa Civil.

Rosilene diz que foi surpreendida pelas águas e não conseguiu salvar praticamente nada. Ela mora com o marido, um filho e a mãe. "Perdi quase tudo, cama, roupa, calçados, louças e comidas. A água chegou muito rápido, não deu tempo de tirar nada. Quando a gente pensou que a água estava chegando, já estava dentro de casa", relata.

Emocionado, Aparecido Carlos Saturnilho, de 51 anos, conta que é a segunda vez em três anos que perde toda a mercadoria de seu comércio, localizado em uma das principais do Centro de Brasiléia. Em 2012, as paredes do antigo estabelecimento comercial, poucos metros antes do novo local, ruíram com a força das águas. Neste ano, o comerciante tentava salvar algumas das confecções que vendia na loja com a ajuda de uma embarcação.

"Foi uma coisa inexplicável. Em três anos, é a segunda vez que estou perdendo a loja. Ainda não dá para calcular meu prejuízo, mas perdi praticamente toda a minha mercadoria e estou correndo de novo o risco de perder o ponto. É uma sensação de desgosto e tristeza. Uma vida perdida. São 28 anos de trabalho, formei meus dois filhos com esse comércio. Agora é tentar recomeçar, se Deus quiser", fala.

Epitaciolâdia, município vizinho de Brasiléia, apesar de também sofrer com a enchente, tem sido o local utilizado para abrigar também as famílias. São cinco abrigos públicos, que atendem pessoas das duas cidades. O único hospital de Brasiléia, ilhado pelas águas, até a noite da terça-feira (24) atendia apenas urgência e emergência.

Os pacientes passaram a ser transferidos de barco, sob a supervisão do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e Corpo de Bombeiros, também para o hospital da cidade vizinha, segundo a gerente de Assistência à Saúde, enfermeira Damares Moreira.

"Estamos atendendo urgência e emergência. A prefeitura tem feito atendimentos ambulatoriais e nós, os casos mais urgentes. O hospital está praticamente ilhado. O rio subiu muito. Na parte de trás, a água está chegando e a rua está alagada. Nossa equipe leva o paciente até onde está o Corpo de Bombeiros através de voadeira, com equipe do Samu", explica a gerente de Assistência à Saúde.

Cleonice Teixeira, de 30 anos, trabalha como cabeleireira em Epitaciolândia, mas mora em Brasiléia. Apesar de ainda não ter sido atingida diretamente pela água, segundo ela, os moradores que ainda estão no local estão ilhados. "Nunca tinha vivido essa situação, foi inesperado. Estamos sofrendo muito. Em Brasiléia estamos ilhados, sem internet, sem celular, nem energia. Estamos precisando de ajuda. Os bancos estão submersos, não têm dinheiro. As pessoas estão se ajudando como podem", fala.

A Escola Estadual Belo Porvir, um dos locais mantidos como abrigo, é a residência temporária da doméstica Juciane Silva, de 22 anos, desde a manhã da terça-feira (24). Desabrigada com o marido e dois filhos, ela conta que saiu de casa somente quando não existia mais a possibilidade de permanecer.

"A água começou a entrar na minha casa de forma bem calma, mas vimos que não dava mais para ficar e tivemos que sair. Não tiramos tudo, foi preciso deixar algumas coisas. Agora é só esperar a vontade de Deus, que as águas baixem, porque é difícil. Já chorei bastante de preocupação da água estragar minha casa", diz emocionada.

Situação semelhante vive Abraão Ribeiro, de 38 anos, que trabalha com reciclagem. Com os móveis, arrumou uma das salas do abrigo. A esposa, Irenice Amância, de 24 anos, está grávida do segundo filho. Um neto e uma sobrinha também estão no local. A água obrigou a família a sair de casa ainda na noite da segunda-feira (23).

"O pessoal da Defesa Civil chegou à minha casa pedindo para que saíssemos porque ficaria  mais difícil depois. Graças a Deus, não perdi meus móveis. Trouxemos as poucas coisas que temos. Eu estava lá na outra grande alagação [em 2012], mas não chegou nem perto dessa. Estou preocupado só de danificar a madeira da minha casa, mas não tem o que fazer", conta.

Defesa Civil
A disposição das águas em relação à última enchente de grande proporção que os municípios viveram é diferente, segundo o coordenador da Defesa Civil Estadual, coronel Carlos Batista. Ele explica que o Rio Acre em Brasiléia recebe o volume de água que chega de Assis Brasil, que começou a baixar. No entanto, a dificuldade enfrentada é quantidade de chuva que ainda é alta.

"Dessa vez, o Rio Acre subiu de maneira diferente da alagação de 2012. Naquele ano, de maneira brusca e durante 24 horas, ele tomou conta de toda a área urbana. Desta vez, foi gradual. Até 1h da terça-feira (24), o rio vinha subindo 6 cm por hora. E durante o dia, ele estava subindo em torno de 2 cm", acrescenta.

Nesta quarta-feira (25), o manancial começou a apresentar sinais de vazantes e saiu da marca de 15,46 metros, às 21 horas de terça, para 15,26 metros na medição das 10h.

 

 

 

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