Políticos tentam parar Lava Jato por 'pseudo estabilidade', diz Janot

Políticos tentam parar Lava Jato por 'pseudo estabilidade', diz Janot

Em um discurso que cobrou engajamento da população em defesa da Lava Jato e criticou movimentações de políticos para tentar frear as investigações, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou nesta segunda-feira (27) que o Ministério Público "não se sujeitará à condescendência criminosa" em favor de uma" pseudo estabilidade destinada a poucos".

Comandando a maior investigação criminal do país, Janot defendeu que é preciso "quebrar os grilhões do patrimonialismo" e comparou a resistência ao avanço da Lava Jato no meio político às dificuldades para abolição da escravatura no país, há 130 anos.

A fala ocorre após Janot chegar a pedir a prisão de integrantes da cúpula do PMDB, que foi negada pelo STF (Supremo Tribunal Federal), depois que foram reveladas gravações mostrando uma tentativa de costurar um pacto para impedir os desdobramentos da apuração do esquema de corrupção da Petrobras que atingem políticos de vários partidos.

Para Janot, a operação revelou que políticos e empresários transformaram "o Estado em um clube para desfrute de poucos."

"Algumas vozes reverberam o passado e ensaiam a troca do combate à corrupção por uma pseudo estabilidade, a exclusiva estabilidade destinada a poucos. Não nos sujeitaremos à condescendência criminosa: não é isso que o Brasil quer, não é disso que o país precisa", afirmou o procurador-geral na abertura de um seminário que vai discutir os grandes casos criminais do Brasil e da Itália.

"Chegou a hora de quebrarmos também os grilhões do patrimonialismo, de nos libertarmos de um modo de ser que não nos pertence, daquele malfadado jeitinho associado à corrupção da lei que não traduz nossa verdadeira natureza. É hora de nos desvencilharmos da cultura de espoliação e do egoísmo. O país fartou-se desse modelo político", completou

Janot disse que, desde as manifestações de rua em 2013, a sociedade está "sedenta por uma virada histórica", pelo fim da impunidade. Segundo ele, "temos hoje um déficit de representação política. Um descompasso entre o que quer o eleitor e o que faz o seu representante. "

"Não chegaremos ao fim dessa jornada pelos caminhos do Ministério Público ou do Judiciário. Esses são peças coadjuvantes no processo de transformação e de aprofundamento dos valores republicanos. A Lava Jato, por si só, não salvará o Brasil, nem promoverá a evolução do nosso processo civilizatório. Para tanto, é indispensável a força incontrastável da cidadania vigilante e ativa", afirmou.

Na avaliação do procurador-geral, o sistema eleitoral está "falido".

"Lava Jato desvelou, como nunca, o sistema de favores mútuos entre políticos, partidos e empresários, que mais do que locupletar os seus sócios, frauda a democracia representativa, conspurca os valores republicanos e transforma o Estado em um clube exclusivo para desfrute de poucos, mas penosamente custeado por todos os brasileiros. É hora de nos desvencilharmos da cultura de espoliação e do egoísmo. O país fartou-se desse modelo político".

Janot afirmou que os políticos precisam perceber o desejo de mudança na sociedade.

"Se os nossos timoneiros não perceberem rapidamente a direção dos novos ventos, certamente estarão fadados à obsolescência democrática. Ficarão, com os seus valores ultrapassados, presos irremediavelmente no tempo do esquecimento e condenados pelo juízo implacável da história."

"O Brasil, neste momento, precisa de cada um de nós enquanto cidadãos, muito mais do que de qualquer instituição ou agente público individualmente considerado. Eis a exortação", disse.
Para Janot, "fatores internos e externos revela ambiente favorável ao fim da impunidade e da leniência com a corrupção."

"Aos que não desejam o progresso, fica a lição desse tempo memorável: somos um país de homens e mulheres livres, onde a lei deve valer na mesma medida para todos", disse.

 

 

 

 

Folha de São Paulo