Pesquisadores já garantem que paraplégicos voltarão a andar em pouco tempo

Pesquisadores já garantem que paraplégicos voltarão a andar em pouco tempo

Doze passos. Foi quanto andou na última quinta-feira um jovem paraplégico usando uma veste robótica comandada pelo cérebro, dentro dos laboratórios do Projeto Andar de Novo, em São Paulo. A experiência, liderada pelo cientista brasileiro Miguel Nicolelis, é um dos testes para uma demonstração pública do exoesqueleto, nome dado ao robô vestido pelo adolescente, que funciona como um esqueleto artificial externo. Na abertura da Copa do Mundo, em 12 de junho, um paraplégico usando a estrutura vai caminhar pelo gramado da Arena Corinthians e dará o primeiro pontapé do campeonato.

A exibição, que será vista por 70 000 pessoas no estádio e transmitida para todo o mundo, revela que, em pouco tempo, protótipos como o do Andar de Novo e outros avanços da ciência, como a pesquisa com células-tronco ou estímulos elétricos, terão saído dos laboratórios e farão pessoas que perderam o movimento das pernas caminhar pelas ruas. "Isso não é mais ficção científica. Em menos de dez anos, com o aperfeiçoamento de robôs e das pesquisas sobre os sinais cerebrais, os paraplégicos irão caminhar", diz o neurocientista Guy Chéron, da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica.

Projeto brasileiro — Nicolelis, cientista da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, mobilizou uma equipe de 156 cientistas de 25 países e recebeu 33 milhões de reais do governo federal brasileiro para viabilizar a demonstração no Mundial. O projeto, lançado em 2011, é composto de um robô que deve ser feito de metal leve e operado por mecânica hidráulica, conectado a uma touca repleta de eletrodos de eletroencefalograma (EEG) vestida pela pessoa que vai usar a máquina. Para fazê-la andar, os sinais enviados pelo cérebro seriam captados pelos eletrodos e enviados a um computador nas costas do robô. Ali, eles devem ser traduzidos e transformados em comandos como "mover o pé direito" ou "chutar". O sistema, chamado interface cérebro-máquina (ICM), transforma as intenções do cérebro em movimento.

Oito pessoas estão participando dos testes, que começaram em novembro e estão sendo divulgados em uma página do Facebook. Uma das novidades anunciadas pelos cientistas que projetaram a estrutura, que pesa entre 50 e 70 quilos, é que ela faz os jovens sentirem a sensação de contato com o solo, como se ele fosse percebido pelos pés. Sensores acoplados aos pés do robô enganam a mente, passando a informação da proximidade do chão como se ela viesse do corpo. Com isso, a ideia da equipe responsável pelo projeto (que não respondeu às solicitações de entrevista) é que o exoesqueleto seja compreendido pelo cérebro e controlado como se fosse mais um membro do organismo.

Exoesqueletos pelo mundo — Em vários países, há diferentes tipos de exoesqueletos que vêm sendo desenvolvidos por equipes independentes para restaurar a mobilidade de pessoas que perderam os movimentos das pernas. O primeiro deles, uma máquina ambulante adaptada aos movimentos humanos, foi construído na década de 1960, pelo Pentágono americano. O traje pretendia aumentar a força dos soldados, mas foi abandonado por suas limitações — pesava mais de 500 quilos.

Há pouco mais de uma década, o interesse científico pelos exoesqueletos migrou das pesquisas militares para os estudos médicos, procurando melhorar o cotidiano de pessoas com restrições nos movimentos. A ampliação das capacidades humanas promovida por esses robôs é o objetivo de sistemas como o HAL (Hybrid Assistive Limb, em português Membro Híbrido de Apoio), desenvolvido por Yoshiyuki Sankai, professor da Universidade de Tsukuba, no Japão, desde 2004, ou do ReWalk, criado pelo engenheiro israelense Amit Goffer e à venda desde 2012.