Paraibano dono da Hyundai-Caoa é capa da Exame e garante: já faturou R$ 100 bilhões em uma década

Paraibano dono da Hyundai-Caoa é capa da Exame e garante: já faturou R$ 100 bilhões em uma década

O Paraibano Carlos Alerto de Oliveira Andrade, mais conhecido como Caoa, é capa da revista Exame desta semana. Na matéria, assinada pelo repórter Vicente Vilardaga, é traçado perfil do empresário, desde a infância até se tornar o maior vendedor de carros do Brasil. Caoa revelou a reportagem que não seria errado dizer que já faturou R$ 100 bilhões.

Confira abaixo uma parte da matéria e leia a íntegra na edição da revista que circula nas bancas.

A Década de CAOA 

Com sua notória agressividade, Carlos Alberto de Oliveira Andrade, mais conhecido como (CAOA), lucrou R$ 5 bilhões de reais vendendo carros no Brasil desde 2004. Repetir o feito não será fácil.

De Vicente Vilardaga 

Foi usando uma agressividade incomum que esse médico paraibano de 74 anos se torno um dos empresários mais poderosos da indústria automotiva mundial. “Se eu falar que faturei 100 bilhões de reais nos últimos dez anos, está bem próximo da realidade”, disse Caoa a EXAME. Seu lucro nesse período é estimado entre 5 bilhões e 10 bilhões de reais. Ele é dono de 132 concessionária Hyundai, da americana Ford e da japonesa Subaru e de uma fábrica que produz para a Hyundai em Anápolis, no interior de Goiás. Como é o único dono da empresa, essa estrutura faz com que ganhe dinheiro como ninguém. Ele não revela quanto recebeu em dividendos no período (a Caoa não publica balanços). Mas algumas comparações ajudam a entender seu tamanho na indústria. A americana Penske fatura 14,7 bilhões de dólares por ano, mas seu controlador, Roger Penske, recebeu “apenas” o equivalente a 1 bilhão de reais em dividendos na última década – ele tem, afinal, de repartir seus lucros com milhares de acionistas. No mesmo período, os 80 herdeiros da Ford receberam, em média, 62 milhões de reais cada um em dividendos. No Brasil, os maiores e mais tradicionais rivais de Caoa têm, no máximo, metade de seu faturamento. Comem poeira, em suma.

Ser o maior vendedor de carros do Brasil tinha tudo para ser má notícia hoje em dia. O mercado brasileiro está metido numa séria crise. A venda de carros no país caiu 9% em relação a 2013. Os pátios das montadoras estão abarrotados. Há milhares de operários em férias coletivas. Mas Caoa não tem do que reclamar. Ele esta, afinal, colado em uma marca que parece pertencer a um outro Brasil. Só nos últimos 12 mesesa Hyundai cresceu cerca de 10%. De todas as 50 marcas que disputaram o mercado brasileiro, só Hyundai, Toyota e Renault venderam mais no primeiro semestre deste ano do que no mesmo período do ano passado. O desempenho na última década é ainda mais impressionante. Num período em que as vendas no Brasil triplicaram, a Hyundai passou de 0,27% para 7% de participação. A distância para a quarta colocada, a Ford, caiu de 10 para 2 pontos em dez anos. Se for mantido o ritmo atual, os coreanos vão ultrapassar os americanos em dois anos. Mas é possível manter o ritmo atual? A década de ouro de Caoa será seguida por outra?

O simples fato e vender e produzir carros de uma marca que cola na traseira da Ford é, em si, uma vitória simbólica para Caoa. Ele começou a carreira vendendo para a montadora americana em 1979. Antes disso, porém, tentou ganhar dinheiro das mais diversas formas. Caoa nasceu em João Pessoa, numa família de 17 irmãos. Na adolescência, vendia café aos clientes de um empório de secos e molhados do pai. Depois, comprou um Gordini Dolfini, carro de classe média da época, e virou sócio de uma frota de taxi. Em meados dos anos 60, vendeu o táxi, fez as malas, mudou-se para São Paulo e comprou um mercadinho no centro da cidade. Dois anos depois, voltou para a Paraíba, dessa vez disposto a estudar medicina. Tornou-se um dos primeiro cirurgiões gástricos de Campina Grande e logo se manifestou o jeito de fazer negócios que o tornariam conhecido. Com a ajuda de um enfermeiro, Caoa monopolizou a realização de suturas o hospital – um serviço bem pago, mas desprezado pelos demais médicos. Começou a ganhar dinheiro a ponto de provocar uma revolta dos colegas, que se juntaram e desmontaram a parceria.

Enquanto suturava pacientes e irritava médicos, Caoa fazia negócios na cidade. Como não recebeu um veículo modelo Landau que comprara numa revenda falida, negociou com o dono para assumir a loja – eu se tornaria a principal revenda da Ford no Nordeste, com 90 carros vendidos por mês. Com dinheiro em caixa, Caoa comprava à vista com desconto e vendia do jeito que fosse para girar o estoque e começar de novo. Aceitava até pagamento em cabeças de boi, sacos de cimento e lotes de tijolos. Abandonou a medicina e decidiu se mudar para Recife. “Naquela época, eu era inimigo de todo mundo”, diz. Em 1984, comprou duas concessionárias Ford em São Paulo e passou a incomodar aquilo que chamava de “cardeias” do setor na cidade – um dos inimigos na época era o empresário Eduardo Souza Ramos, que hoje representa a montadora japonesa Mitsubishi no Brasil. De novo, a agressividade comercial foi sua marca. Para ganhar mercado abria aos domingos, algo então incomum. Dava descontos, fazia escambo, mas não perdia cliente. No fim dos anos 80, respondia, sozinho, por 30% das vendas da montadora no Brasil. Em meio à recessão de 1992, comprou de uma só vez 2000 carros Ford que estavam encalhados no pátio. Vendeu tudo. Até hoje, com 11 lojas, é o maior revendedor da empresa no país.

Capa da Revista Exame com data do dia 17/09/2014Capa da Revista Exame com data do dia 17/09/2014

Foi uma série de infortúnios que o levaram a tirar a sorte grande – associar-se à montadora certa (a Hyundai) no momento certo (ainda quando a marca era desconhecida). Em 1992, ele se tornou representante da fracesa Renault no Brasil. Mas, três anos depois, a montadora começou a construir uma fábrica no Paraná e retomou os direitos de importação de seus modelos. Caoa pediu uma indenização de 600 milhões de reais, mas, depois de quatro anos de briga, levou 5 milhões. E começou a procurar outra marca para se associar. Em 1999, fechou com a nanica Hyundai, que tinha 0,27% de participação de mercado no Brasil e era igualmente irrelevante no resto do mundo. Nos primeiros cinco anos, a parceria deu prejuízo. Mas logo em seguida tudo mudaria. Na última década, a Hyundai se estabeleceu como uma das principais montadoras do mundo. como havia acontecido com as fabricantes japonesas antes, as coreanas encontraram seu espaço – basicamente, oferecendo produtos parecidos, mas que saíam mais baratos do que os carros da concorrência. Conquistou, por exemplo, 5% do disputado mercado americano. Com carros cada vez melhores à sua disposição, Caoa pôde se dedicar à sua especialidade: vender.

Em nenhum grande mercado fora da Coreia a Hyundai tem tanta força quanto no Brasil. É impossível atribuir com exatidão os méritos dessa transformação, mas é inegável que ela se deve a combinação de bons produtos e bons preços com uma avassaladora estratégia de marketing. Mesmo sendo muito menor do que as rivais tradicionais, a Hyundai-Caoa foi por quatro anos seguidos, entre 2009 e 2012, a montadora que mais investiu em publicidade. Em dezenas de ocasiões, foi repreendido pelo Conar, órgão que regula a publicidade do país, por divulgar nas campanhas resultados “parciais” de pesquisas com consumidores, que davam a impressão de que a Hyundai tinha os melhores carros do planeta. Também anunciava que os veículos tinham inovações que, na verdade, não estavam disponíveis nos modelo vendidos no Brasil. A principal queixa contra a Caoa foi feita em 2010 pelo empresário José Luis Gandini, importador da também coreana Kia Motors, marca controlada pelo grupo Hyundai. Gandini protestou contra frases usadas por Caoa para exaltar a Hyundai em seus anúncios, como “Hyundai. Já é a quarta maior fabricante de automóveis do mundo” ou “Até a Kia, sua divisão barata, ganhou notícia”. O problema é que a Hyundai só alcançou o quarto lugar no mercado global graças à soma sua produção com a da Kia – as duas montadoras se fundiram em 1999, Gandini e Caoa não se falam. Procurado, Gandini não deu entrevista.

O Tamanho do Império

A receita, o lucro e os principais números do Grupo Caoa, recordista na venda de carros no Brasil

Os maiores vendedores de carros no Brasil (Faturamento em reais)

12 bilhões – Grupo Caoa ((Hyundai, Ford e Subaru)

6 bilhões – Grupo Itavema (Multimarcas)

4,5 bilhões – Grupo Souza Ramos (Mitsubishi e Ford)

3 bilhões – Grupo SHC, de Sérgio Habib (JAC e Citroen)

Números do Grupo

100 Bilhões de reais de faturamento no período 2004-2013

1 bilhão de reais – em 80 imóveis, entre edifícios comerciais, concessionárias e terrenos

115 mil veículos vendidos em 2013

132 concessionárias da Hyundai, da Ford e da Subaru

Uma fábrica da Hyundai, em Anápolis (GO), com capacidade de produção de 36 mil carros por ano

Como o lucro de Caoa se compara a outros negócios familiares no mundo (acumulado de 2004-2013)

Caoa (indústria e varejo) – 5 Bilhões

Ford (indústria) – 5 Bilhões

Fiat (Indústria) – 3,5 Bilhões

Penske (Varejo) – 400 milhões

 


Redação com Exame