O Segundo Sol vai chegar? Novo planeta dá fôlego a teorias da conspiração

O Segundo Sol vai chegar? Novo planeta dá fôlego a teorias da conspiração

Nibiru, Hercólubus, Segundo Sol, Nêmesis. Você com certeza já ouviu falar de pelo menos um destes termos astronômicos – nem que seja na música popular. Cássia Eller à parte, as teorias que envolvem tais nomes apresentam diferenças, mas combinam em um ponto: um corpo celeste se aproxima da Terra e causa transformações em nosso planeta. A tese foi bastante divulgada até 2012 (lembra do "fim do mundo"?), mas depois foi deixada de lado. Agora, ganhou novo fôlego com os indícios de um novo planeta em nosso Sistema Solar. Mas do que se trata?

"A Nasa esconde da gente"

Elizabeth Garcia tem 51 anos e trabalha em uma clínica de estética na região da avenida Paulista, em São Paulo. Em parte das horas vagas, se dedica a pesquisar sobre Nibiru (para ela, todos os termos se referem ao mesmo objeto) e divulgar na internet. A página do Facebook da qual é dona ("Nibiru – O Segundo Sol") começou como um arquivo pessoal para guardar supostas fotos do "Segundo Sol", mas agora tem quase 13 mil seguidores e quatro administradores.

Nos contatos preliminares com a reportagem, ela deixa logo claro: "não é lenda urbana, é fato". A certeza dela veio após uma dica da irmã sobre o assunto, observações em Itanhaém (SP) e pesquisas em supostos sites fechados pela Nasa. O argumento de Elizabeth, por sinal, passa pelo mesmo de toda teoria conspiratória e é parecido com os que acreditam na Terra Plana: "a Nasa esconde da gente", afirma ela ao UOL.

Elizabeth faz parte dos crédulos de que Nibiru (ou Segundo Sol) é uma estrela anã-marrom, um corpo celeste com pouco brilho, que se aproxima da Terra. A aproximação seria a responsável por mudanças climáticas e atividades da natureza, como terremotos. Para ela, é exatamente ele o suposto novo planeta apontado por cientistas.

Arquivo pessoal
Foto tirada por Elizabeth mostra suposto "Segundo Sol" - para astrônomo consultado pelo UOL, não passa de um buraco entre as nuvens por onde a luz passa

"Nós achamos que é o planeta Nibiru, mas que eles estão tentando dar uma forma de divulgar para a gente isso", alega, para depois dizer que o corpo não deve colidir com a Terra, como antes alguns fanáticos apontavam. "Ele não vai colidir, vai fazer sua passagem pelo Sistema Solar e vai afetar todos os planetas. Teremos mais terremotos, vulcões, tsunamis, secas, inversões dos nossos polos. São coisas que já vêm acontecendo", diz, baseada em sua pesquisa particular na internet. 

De fato, a sua página vai além da simples discussão sobre Nibiru e divulga também qualquer dado relacionado a eventos da natureza na Terra. A comunidade é dinâmica: de acordo com Elizabeth, há gente de todas as idades e até quem aparece só para chamá-la de louca, mas também quem participa enviando imagens.

"Loucura total"

Mike Brown, o principal responsável pelo estudo recente que dá fortes indícios de um suposto novo planeta no nosso Sistema Solar, afirmou ao UOL, que a lenda de Nibiru e afins é "loucura total". Quem vai na mesma linha é o astrônomo brasileiro Renato Las Casas, chefe de astronomia do Icex da UFMG (Instituto de Ciências Exatas da Universidade Federal de Minas Gerais).

"Este corpo, nessas condições, não existe. Acreditamos que o Sistema Solar atingiu um equilibro pelo menos para os grandes corpos. Um planeta causar uma grande perturbação, como maremotos e afins, não tem a mínima chance. A gente já estaria vendo esse planeta há muito tempo. Na ciência a gente nunca pode dizer que algo é impossível, mas têm algumas coisas que é viajar na maionese", opina ao UOL, também refutando a tese da Nasa esconder a informação.

Frederic J. Brown/AFP
Mike Brown, responsável pelo estudo do novo planeta, diz que lendas de Nibiru e afins são "loucura"

"A Nasa esconder uma coisa como um corpo enorme perto da Terra é impossível. Não é só a Nasa que obtém essa informação, existem outras pessoas e instituições mundo afora. Mas poxa, o pessoal da Nasa também é gente, são humanos. Guardar um segredo desse? Impossível", afirma Las Casas.

O fato de Nibiru, nos moldes defendidos por alguns grupos, ser impossível para Las Casas não quer dizer, contudo, que outro corpo celeste grande não apareça. Para o astrônomo, é possível existir um planeta longínquo, mas não em rota de passagem pela Terra. O astrônomo da UFMG ainda deixa claro que a ciência estuda inúmeras possibilidades de fim do mundo, mas nenhuma envolvendo um corpo como o "Segundo Sol".

"Fim do mundo é quase certo. Vai ser daqui 4,5 bilhões de anos, quando o Sol virar uma estrela vermelha. Agora, o fim da humanidade, se não se espalhar por outros planetas, vai vir muito antes disso. A ciência cita umas 20 possibilidades para isso, sendo que algumas teriam origem astronômica. Uma delas pode ser a colisão de um grande corpo com nosso planeta. Não um outro planeta, mas talvez um grande asteroide", conta Las Casas.

Imaginário popular

Os dois astrônomos têm suas opiniões sobre o motivo da astronomia atrair tanto interesse e teorias diferentes, algumas delas conspiratórias. Para Mike Brown, é porque "faz parte da nossa vizinhança". Já Las Casas acredita que é porque o campo remete a "questões transcendentais" (de onde viemos? Para onde vamos?). Não à toa, alguns dos nomes citados no início do texto fazem parte da cultura popular.

A teoria do "Segundo Sol", eternizada na voz de Cássia Eller, faz menção ao nosso Sistema Solar ser binário, com o Sol ligado a uma outra estrela. Já Hercólubus está relacionado a um livro do ocultista V. M. Rabolú que prevê um corpo que estaria se aproximando da Terra e que foi o responsável por destruir Atlântida, a cidade perdida, há milhares de anos.

Nêmesis seria um objeto grande que atrairia cometas para a Terra e explicaria destruições em massa do nosso planeta, mas foi praticamente descartado após a sonda Wise, da Nasa, não achar nada do tipo. Nibiru, por sua vez, tem sua origem em supostos escritos dos sumérios traduzidos pelo arqueólogo Zecharia Sitchin que mostrariam uma interação de antigas civilizações com seres humanoides deste planeta, chamados "anunnaki".

Um dos poucos cientistas que supostamente defendeu a aproximação de um corpo celeste grande causador de transtornos na Terra foi o chileno Carlos Muñoz Ferrada, que diz que seria um "planeta-cometa", por ter massa planetária e órbita de um cometa. A ciência, por enquanto, não provou nenhuma dessas teorias. 

 

 

 

 

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