'O passado desmoronou', diz radialista italiano sobre terremoto em povoado

'O passado desmoronou', diz radialista italiano sobre terremoto em povoado

Apresentador de "Brasil", programa da rádio italiana Rai 1 dedicado à música brasileira, Max De Tomassi, 53, perdeu amigos e conhecidos entre os mais de 270 mortos no terremoto que atingiu a região central da Itália.

O italiano recebeu um telefonema da filha, Benedetta, 28, pouco depois das 3h30 da madrugada da quarta-feira (24), relatando que parte da casa de pedra construída pelos avós em 1927 havia desabado.

A residência ganhara vida novamente há três anos, quando Max trocou Roma por Domo, um dos 79 vilarejos de Amatrice, cidade entre as mais atingidas pelo tremor.

Foi ali que há duas semanas, ele hospedou Marisa Monte, em férias na Europa. Levou o filho da cantora brasileira ao barbeiro que cortava seu cabelo desde criança. Pietro morreu no terremoto.

Nelson Motta, Ivan Lins e Dori Caymmi também conheceram a região, ciceroneados por Max, que conta como se sente ao ver "parte de seu passado desmoronar".

"Há três anos me mudei para Domo, um dos 79 vilarejos de Amatrice, sede do município, onde eu ia fazer compras, exames. Foi uma escolha ditada pelo meu divórcio e que me permitiu curar as feridas da separação.

Estou a 150 km de Roma e tinha tudo de que precisava. Nada ali era supérfluo. É um povoado com apenas sete casas. A minha é a última de uma rua sem nome. Não precisa, todo mundo se conhece. É uma gente simples, gentil, que vive em uma região adorável.

Na madrugada de quarta-feira (24), eu estava no apartamento da minha namorada em Roma, quando acordei com o tremor. O primeiro pensamento foi a casa da montanha, que fica numa área de forte atividade sísmica.

Poucos depois de sentir a sala tremer, o telefone toca. Era minha filha, Benedetta, que chorava e pedia ajuda. Foi um desespero. Queria estar em Domo no lugar dela, que estava lá com o namorado, Mattia.

Naquela noite, eles demoraram a ir para a cama, pois ficaram conversando com um primo. Na hora do tremor, Benedetta estava deitada no sofá da sala, esperando a lareira apagar. Mattia tinha ido buscar um copo de água na cozinha e voltou com a casa balançando. Ele se jogou em cima dela para protegê-la.

Eles conseguiram deixar o local logo após o primeiro tremor. Ficaram desesperados. Sem luz, não dava para enxergar nada e os tremores continuavam. Os dois conseguiram sair para o jardim sem ferimentos, mas completamente sujos de poeira.

O reboco antigo caía aos pedaços. A casa de pedra ficou de pé, mas cheia de rachaduras. Parte do teto desabou, o piso rachou. Desabaram também duas paredes da edícula, que fica ao lado da casa principal.

Assim como os demais moradores do povoado, eles passaram o restante da noite na rua. Meus pais, que estavam em outra casa da família a uns 50 metros, também passavam bem.

Corri o risco de perder minha filha e perdi muitos amigos, pessoas que amava de verdade e que conhecia desde criança. Parte do meu passado desmoronou naquela madrugada.

Entre as vítimas do terremoto está Pietro, o barbeiro de Amatrice que cortava meu cabelo desde que eu tinha um ano. Há duas semanas, levei o filho da Marisa Monte para aparar o cabelo lá.

De férias na Itália, Marisa foi minha hóspede por quatro dias nesta casa em Domo, agora inabitável. Já hospedei lá outros brasileiros, como Nelson Motta, Ivan Lins e Dori Caymmi.

PAIXÃO PELO BRASIL

Há 15 anos, apresento um programa dedicado à MPB na rádio Rai 1 chamado 'Brasil'. Produzi os últimos dois DVDs do Chico Buarque gravados na Itália. Sou um apaixonado pela música e pela cultura brasileiras.

Recebi muitas mensagens de solidariedade de amigos do Brasil, desde que fiz um post no Facebook sobre o terremoto. Foi comovente esse apoio.

Eu queria ir para Domo na mesma noite do terremoto, mas muitas estradas ficaram fechadas em razão de desmoronamentos. Só pela manhã foram liberadas.

Com a separação, fui morar na casa dos meus avós maternos, que eles colocaram de pé com imensos sacrifícios em 1927.

Eu me sinto próximo de todos aqueles que estão pensando em reconstrução, em retornar à vida depois do terremoto. Convivia com o barbeiro, o padeiro, o agricultor, o dono da lavanderia, o vendedor do mercado, a doutora do posto de saúde.

Amatrice e os seus povoados vão renascer e mostrar a beleza humana e natural que a cerca, com suas paisagens únicas, com seu pôr do sol de tirar o fôlego.

Que se recordem de lá não pela tragédia, mas como a terra do spaghetti all'Amatriciana, uma das receitas mais populares da Itália, que leva bochecha de porco, tomate, azeite, sal e pimenta.

É o lugar que me viu crescer e que voltou a ser o meu refúgio na maturidade. Espero que possa renascer dos escombros como foi uma volta e que voltemos a viver lá com o jardim sem detritos, com a lareira em pé e as paredes no lugar." 

 
 

Folha