Na guerra pela audiência, Ibope aposta na internet; vai entrar nos medidores

Na guerra pela audiência, Ibope aposta na internet; vai entrar nos medidores

Os últimos meses têm sido especialmente difíceis para a televisão aberta no Brasil. A concorrência, antes distinguida apenas entre canais, mudou. Há um tempo a televisão por assinatura se tornou a pedra no sapato dos canais abertos e, recentemente, ela passou a dividir espaço com serviços de streaming de conteúdo, como a Netflix. Como resposta à perda de público, as emissoras investem cada vez mais na inserção de parte de sua produção em seus portais na internet e também em novos serviços de streaming, prática percebida pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), que vai começar a medir a audiência dessas exibições a partir de 2015.

Por meio de um sistema desenvolvido pela equipe da empresa, o Ibope vai fazer a contagem de capítulos de novelas, séries e programas da grade de televisão assistidos em computadores e tablets, em sites como o YouTube, por exemplo, ou das próprias emissoras. Assim, se um espectador perder um episódio de uma novela no momento em que ele for exibido na televisão convencional, mas assistir ao capítulo no portal da emissora, a visualização será levada em conta por esse dispositivo.

Apesar de parecer tardio, já que é prática comum sites de exibição de vídeos apresentarem contagem de visualizações, o projeto do Ibope funciona de uma maneira distinta de um contador da internet (ver box) e está afinado com o de outras empresas no mundo. O estudo é similar ao iniciado recentemente em países como os Estados Unidos, pelo instituto Nielsen, e na Áustria e Holanda, pela GfK. Esta última, aliás, está prevista para começar a operar no Brasil em 2015, e será a primeira concorrente do Ibope em medição de audiência de televisão.

A ameaça da chegada da Gfk é um potencializador que levou o Ibope a atualizar seus serviços. Entre as novidades da empresa brasileira está a medição de audiência de programas gravados por meio de smart TVs e pelos chamados set-top boxes, aparelhos que permitem conexão à internet e armazenamento de conteúdo da televisão. Também, até o final do ano, as exibições de programas de TV em smartphones serão integradas ao sistema de avaliação empresa.

A TV não morreu - Segundo Dora Câmara, diretora regional Brasil do Ibope, o interesse pela internet não indica a “morte” da televisão convencional. É, antes, um complemento. “As pessoas têm consumido televisão por meio de diferentes telas. Portanto, as pessoas não estão necessariamente migrando da TV, mas sim complementando o seu hábito com outras alternativas e formas de consumo do conteúdo”, afirma ela.

Atenta a essa tendência, a gigante Globo começou a mexer em seus hábitos de distribuição online. Há anos o canal disponibiliza programas e novelas na íntegra somente para assinantes da Globo.com, com o custo mínimo mensal de 12,90 reais. Aqueles que não pagam o serviço só podem degustar trechos da programação. Contudo, no final de abril, a emissora decidiu que os episódios do humorístico Tá no Ar: A TV na TV, de Marcelo Adnet e Marcius Melhem, fossem abertos ao público em geral no site, uma possível ameaça ao canal Porta dos Fundos, que domina o humor na internet e que, por sua vez, vai fazer o caminho inverso e se aventurar na TV convencional.

Outras emissoras nacionais se comportam de maneira mais liberal com seu conteúdo online. SBT e Band, por exemplo, disponibilizam quase toda a grade para o público em geral. A exceção fica por conta de atrações cujos direitos de reprodução na internet não foram comprados, como filmes e programas estrangeiros.

A inserção de conteúdo produzido pelas emissoras em suas páginas na internet busca, é claro, chamar a atenção do telespectador para sua programação, o que, consequentemente, atrai anunciantes. Representantes da Globo, SBT e Band afirmaram ao site de VEJA que seus sites estão inclusos em planos comerciais e a informação sobre o número de acessos de um ou outro vídeo é utilizada para atrair propagandas. “Todos os planos comerciais dos programas da televisão saem da emissora com a proposta online inclusa. E a ideia principal é oferecer ações complementares, que comecem na TV e terminem na internet ou vice-versa. Os anunciantes gostam bastante dessa estratégia”, afirmou Eliane Leme, diretora-executiva do site da Band.

Para Maria Immacolata Lopes, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP, a tendência é que as emissoras trabalhem nas duas plataformas, a televisão tradicional e a internet. “Enxergar a web como concorrência não é uma verdade. Um meio não vai substituir o outro, os dois vão conviver”, afirma.

Segundo Chuck Tryon, professor de estudos de mídia da Fayetteville State University, na Carolina do Sul, Estados Unidos, a TV comum ainda tem sua importância. “É possível que a transmissão tradicional seja substituída para certos tipos de programas. A Netflix atingiu grande sucesso com as séries Orange Is the New Black e House of Cards, mas as transmissões ao vivo – principalmente para as áreas de esportes, notícias e eventos como o Oscar – ainda têm papel importante na manutenção da televisão tradicional.”

Soberania da internet – De acordo com Tryon, no entanto, grandes redes de televisão, como a CBS e a NBC nos EUA e a Globo no Brasil, podem perder a importância que costumavam ter para o espectador, que deve partir em busca de serviços de streaming. A prática de cancelar assinaturas de TV a cabo ou por satélite e permanecer apenas com serviços de streaming se prolifera nos Estados Unidos. Um estudo realizado em abril de 2014 pela consultoria Experian Marketing Services mostrou que 7,6 milhões de residências americanas deixaram de lado a televisão por assinatura para consumir conteúdo disponibilizado pela internet por empresas como Netflix – que não para de crescer e anunciou recentemente expansão em sua operação no mercado europeu – e Hulu.

Segundo o professor Chuck Tryon, há chances de esse fenômeno ser observado em outros mercados, entre eles o brasileiro. “Essa tendência se tornou muito comum nos Estados Unidos e pode ser seguida por outros países. Há mais chances de isso acontecer em lugares onde pacotes de TV a cabo ou por satélite são muito caros”, afirmou ao site de VEJA. No Brasil, por exemplo, pacotes de televisão por assinatura chegam a valores na casa das centenas, enquanto a Netflix tem plano inicial pelo preço de 19,90 reais.

De carona no sucesso da empresa, que já conta com 48 milhões de assinantes no mundo, outros serviços de streaming começam a chegar ao Brasil, como Fox Play e HBO Go, atreladas às redes de canais da TV paga. Para assistir à programação dessas duas redes, no entanto, é necessário ter assinatura de um pacote tradicional de televisão. Sinal de que, ao menos por enquanto, o mercado do Brasil ainda se prende ao bom e velho aparelho de TV.

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