Maré cheia: setor naval deve contratar ao menos 17 mil profissionais no próximo ano

Maré cheia: setor naval deve contratar ao menos 17 mil profissionais no próximo ano

Bons ventos sopram no mercado de trabalho do setor naval brasileiro. Impulsionado pela exploração de petróleo e gás, principalmente na costa fluminense, o segmento não sente os efeitos do baixo crescimento econômico do país e continua gerando vagas. E, para quem quer seguir mar adentro, as oportunidades só crescem. A indústria naval, que chegou a ter menos de dois mil operários no fim da década de 90, hoje emprega diretamente mais de 80 mil pessoas no país, segundo o Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval) — quase metade dos trabalhadores na área, cerca de 35 mil, é do Estado do Rio.

O que vem mais por aí? Estimativas da instituição apontam que, só para o próximo ano, há demanda para cerca de 17 mil trabalhadores. Números que ainda devem aumentar, segundo Carlos Campos Neto, coordenador de Infraestrutura Econômica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea):

— A exploração do pré-sal está começando agora, as demandas vão surgir nestes próximos anos. Ainda há estaleiros para serem inaugurados, que vão demandar profissionais não apenas ali, mas também nas empresas fornecedoras e nas prestadoras de serviço. Conforme os resultados forem surgindo, as demandas do mercado também aumentarão.

Para até 2020, estão previstas mais 31 plataformas, 16 já em construção. Especialistas são unânimes em afirmar que, ao menos para os próximos 20 anos, a área continuará em ascensão. E os números comprovam. Segundo estudo do Ipea divulgado no dia 14 de outubro, o segmento cresce a uma média de 19,5% ao ano desde 2004. Os investimentos esperados para até 2020 correspondem à cifra de R$ 150 bilhões.

— Ainda existe demanda para a indústria naval para os próximos 25 anos, pelo menos. O Campo de Libra, por exemplo, é o único que foi licitado até agora — acrescenta Campos Neto.

Desde 2003, os contratos de exploração e distribuição devem ter um percentual mínimo de conteúdo local, o que inclui, além de serviços e produtos, a mão de obra. Segundo Campos Neto, esta participação mínima não tem como ser calculada porque depende da construção e de cada contrato.

Mas se a obrigatoriedade incentiva a contratação de trabalhadores brasileiros, lembra Vitor Kneipp, gerente do Instituto Mar e Portos (Imapor), a falta de mão de obra qualificada disponível no mercado ainda é um empecilho para a expansão do setor:

— Nós vamos continuar crescendo, mas precisamos de mais mão de obra e que seja qualificada. As oportunidades oferecem remuneração alta e possibilidade de crescimento, é um setor muito promissor. Mas realmente existe falta de mão de obra, em quantidade e qualidade em alguns setores.

Foi atrás de uma oportunidade na área que o advogado Henrique Lima resolveu largar o emprego em um escritório de advocacia, para se especializar. Resultado: em menos de seis meses, conseguiu emprego em uma empresa no ramo de importação e exportação.

— A maioria dos trabalhos hoje está voltada para a área de petróleo e gás — diz.

E quanto à recente queda no preço do barril de petróleo nos mercados internacionais, que chegou a 27%? Especialistas acreditam que o setor naval não sofrerá consequências. Nem a curto, nem a longo prazos, acentua Alfredo Renault, professor de economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC/RJ):

— Os contratos firmados não correm risco algum. E, neste patamar atual, não teremos inibição de investimentos. Há uma margem de manobra e, caso nenhum evento drástico aconteça, os possíveis contratos estão garantidos. Os números do setor estão bem robustos, pois a quantidade das descobertas que foram feitas é muito grande.

PORTOS, UM DOS MAIORES EMPREGADORES

O Programa de Modernização e Expansão da Frota da Transpetro (Promef), da Petrobras, tem gerado uma das maiores demandas para o setor naval nos últimos anos. A companhia já investiu R$ 11,2 bilhões com a encomenda de 49 navios e 20 comboios hidroviários. Só a construção de um dos estaleiros contratados pela companhia gerou 2,5 mil empregos, entre diretos e indiretos.

O crescimento do mercado foi fundamental para que a carioca Carolina Teles se graduasse em engenharia naval. Formada em 2010, ela saiu da faculdade com emprego garantido.

— Só existem duas faculdades de engenharia naval no Brasil, então as oportunidades são muito boas, com salários excelentes e possibilidade de crescimento. Falta mão de obra qualificada, e muitas empresas acabam financiando a especialização do empregado. Comecei estagiando e logo fui efetivada.

Os portos são um dos maiores empregadores do setor. E com o aquecimento do mercado petrolífero no Estado do Rio, a promessa é que os investimentos neste segmento específico se ampliem. O Porto do Rio já gera dez mil empregos diretos e 25 mil indiretos, com salários médios superiores a R$ 2 mil, segundo informações da Secretaria de Transportes. Além dos outros cinco portos do estado, a inauguração do Complexo do Açu — próximo aos campos de petróleo de Campos e Espírito Santo — expandirá o mercado de trabalho.

— Quando você tem mais navios indo e vindo, precisa necessariamente ter mais logística, há demanda maior para a mão de obra dentro dos portos, de profissionais que saibam lidar com as burocracias e questões específicas da área — afirma Vítor Kneipp, do Instituto Mar e Portos (Imapor).

GRÃOS EQUIVALEM A 40% DO TRANSPORTE

E não só de cargas relacionadas ao petróleo vive o setor marítimo e portuário. O comércio exterior de outros produtos contribui para aquecer a economia destes locais. Só a comercialização de grãos representa mais de 40% de todo o transporte marítimo mundial.

— Somos os maiores exportadores de soja, por exemplo, além das outras commodities, como aço. Apesar de sofrer mais variações, devido às mudanças na demanda por estes produtos, a movimentação naval gerada por eles é básica para o setor — afirma Kneipp.


 

O Globo