Lava Jato: Gilmar Mendes critica vazamento e diz que MP se acha o 'ó do borogodó'

Lava Jato: Gilmar Mendes critica vazamento e diz que MP se acha o 'ó do borogodó'

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), defendeu nesta terça-feira (23) uma investigação sobre os próprios investigadores da Operação Lava Jato e disse que os procuradores da República precisam calçar "sandálias da humildade" e não podem se achar o "ó do borogodó" por receberem atenção da imprensa.

Reportagem publicada na edição do último fim de semana da revista "Veja" aponta uma suposta citação ao ministro Dias Toffoli, que teria sido mencionado pelo presidente da OAS, Léo Pinheiro, nas negociações com procuradores do Ministério Público de uma eventual delação premiada do empreiteiro.

Ninguém pode se entusiasmar, se achar o 'ó do borogodó' porque vocês [imprensa] dão atenção a eles. Cada um vai ter o seu tamanho no final da história. Então, um pouco mais de modéstia. Calcem as sandálias da humildade. O pais é muito maior do que essas figuras eventuais e cada qual assume sua responsabilidade."
Ministro Gilmar Mendes, do STF

Segundo a reportagem, o empreiteiro teria enviado técnicos para verificar o problema e depois indicado uma empresa para reparar o dano. À revista, o ministro afirmou que pagou pelo conserto e não tem relação de intimidade com Pinheiro. A reportagem também mostrou mensagens de celular entre executivos da OAS com menções a Toffoli.

Gilmar Mendes criticou o vazamento da informação. "Eu acho que a investigação tem que ser em relação logo aos investigadores porque esses vazamentos têm sido muito comuns. É uma prática bastante constante e eu acho que é um caso típico de abuso de autoridade e isso precisa ser examinado com toda cautela", afirmou o ministro antes de uma sessão de julgamentos da Segunda Turma no STF.

Segundo Mendes, o Ministério Público precisa calçar "sandálias da humildade". Ele afirmou que o motivo disso é a "atenção" que a imprensa dá a declarações dos procuradores.

Na entrada da Segunda Turma, a mesma integrada por Toffoli, Gilmar Mendes também defendeu o colega. Disse que “nenhum fato ilícito" é imputado a ele.

“Ninguém sabia que ele [Toffoli] estava envolvido nesse tipo de trama. O que me parece é que parece uma coisa um tanto quanto maquinada. Com os objetivos mais ou menos claros”, disse o ministro, em referência ao vazamento da citação a Toffoli.

Gilmar Mendes disse não considerar necessário suspender as negociações para o acordo de delação premiada, como determinado nesta segunda (22) pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, após o vazamento do caso.

“Não acho que seja essa a medida correta. Porque o pressuposto aqui [para suspender a delação] é que houve vazamento por parte dos advogados, dos delatores, quando na verdade me parece que... ‘A quem interessa?’, é a pergunta. E não me parece, em princípio, a não ser que haja um maquiavelismo extremo, que seja por parte de quem quer obter uma redução de pena”, afirmou o ministro, sugerindo que o vazamento não partiu da defesa de Léo Pinheiro.

Mendes também disse que é preciso investigar episódio semelhante, quando veio à tona pedidos de prisão sigilosos feitos contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), o ex-presidente José Sarney, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e contra o deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

A informação gerou críticas dos parlamentares ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que negou ter sido a PGR fonte dos vazamentos.

“O resumo da ópera é o seguinte: você não combate o crime cometendo crime. Isso é o ‘lead’ se vocês quiserem. Ninguém pode se entusiasmar, se achar o ó do borogodó, porque vocês [imprensa] dão atenção a eles. Cada um vai ter o seu tamanho no final da história. Então, um pouco mais de modéstia. Calcem as sandálias da humildade. O pais é muito maior do que essas figuras eventuais e cada qual assume sua responsabilidade”, atacou o ministro, em referência aos investigadores e sua relação com a imprensa.

Nas críticas aos investigadores, o ministro lembrou, por exemplo, da Operação Satiagraha, que levou à condenação do delegado Protógenes Queiróz por vazamento de informações sigilosas.

"Já tivemos esse tipo de coisa. Em momentos passados, eu mesmo vivi aquela coisa da Satiagraha, com a Polícia Federal, de vez em quando se tem esse tipo de situação. Mas depois esses falsos heróis vão encher o cemitério. A vida continua", declarou.

Também criticou o poder que, segundo afirmou, os investigadores têm sobre a imprensa. Para Mendes, os jornalistas são "dependentes de notícias" e "se entusiasmam" com os investigadores.

“Essa gente passa a ter um poder enorme em cima de vocês [jornalistas]. […] Quem tem essas informações coletadas, passa a ter um poder imenso, inclusive direcionar para onde vão as imputações. Precisa ser racionalizado, precisa ter responsabilidade. Quem tem poder tem que ter responsabilidade”, disse.

 

 

 

G1