Laudo do ICCE confirma que policiais militares tentaram fraudar investigações do caso Amarildo

Laudo do ICCE confirma que policiais militares tentaram fraudar investigações do caso Amarildo
Laudo de exame de voz do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) confirmou a participação de policiais militares em fraude processual durante as investigações sobre a tortura e morte do pedreiro Amarildo de Souza. O crime aconteceu em 14 de julho do ano passado, na Favela da Rocinha. O exame foi determinado pela 35ª Vara Criminal do Rio, onde tramita processo contra 25 militares acusados pelo crime, entre eles, o ex-comandante da unidade major Edson Raimundo dos Santos. O resultado confirma parecer técnico realizado pela Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI) do MP-RJ, que identificava como sendo de um dos denunciados, o soldado Marlon Campos Reis, a voz do homem que ligou para outro policial fingindo ser o traficante Thiago da Silva Neris, conhecido como Catatau (na intenção de atribuir ao tráfico de drogas a responsabilidade pelo “sumiço” de Amarildo). Na ligação, Marlon faz supostas ameaças e diz que já “botou o Boi (apelido de Amarildo) na sua conta”. O objetivo da fraude era criar uma falsa prova acusar um traficante da Rocinha pelo crime.
 

De acordo com as investigações da Divisão de Homicídios (DH), Marlon sabia que sua ligação estava sendo monitorada, por ordem judicial, porque efetuou ligação para um celular de outro policial que sabia estar grampeado na chamada Operação Paz Armada, que tinha o objetivo de combater o tráfico de drogas na comunidade. Mas a versão inicial de que a voz seria do traficante foi logo descartada por um laudo da Polícia Civil.

A análise feita pela Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia (DEDIT) da CSI, realizada em 2013, comparando a voz dos 34 PMs citados no processo, revelara que o soldado Marlon foi o autor da ligação, acompanhado do soldado Vital. Com o telefone monitorado, eles foram a Higienópolis fazer a ligação. A interceptação dos celulares particulares dos dois também identificou que eles estavam na mesma Estação de Rádio Base da ligação.

O novo laudo do ICCE — anexado ao processo na última sexta-feira — aponta importantes convergências com a análise anterior da DEDIT, como quando Marlon pronuncia a palavra “nove”, apontando total identificação na comparação de vozes. A perícia diz também que, na análise comparativa, “foram observadas nestas características vocais alguns elementos de convergência entre as amostras de voz do locutor questionado e a voz suspeita” e ainda que “a análise da fala questionada indicava a possibilidade de disfarce da voz do falante”.

Segundo o laudo do ICCE, “os exames periciais foram realizados através de comparações perceptuais fundamentais nas características linguísticas e sociolinguísticas, bem como de outros elementos informativos obtidos a partir dos áudios questionados e a relação destes com o réu. Foram avaliadas também as características acústicas dependentes do locutor obtidas da voz do suspeito e da voz questionada”.

O processo do caso Amarildo, que tramita na 35ª Vara Criminal, irá ingressar na fase de alegações finais. Em outubro de 2013, a Justiça recebera denúncia do MP-RJ contra 25 policiais por tortura (oito deles na modalidade omissiva), 17 por ocultação de cadáver, 13 por formação de quadrilha e quatro por fraude processual. Treze dos 25 policiais militares que respondem criminalmente pela tortura seguida de morte de Amarildo estão presos há quase um ano, aguardando julgamento.

 

 

O Globo