Jornalista que cobriu queda de Collor evoca semelhanças e diferenças com cenário atual

Jornalista que cobriu queda de Collor evoca semelhanças e diferenças com cenário atual

 Como, salvo erro de memória, único sobrevivente na Folha da equipe que cobriu o impeachment de Fernando Collor, posso testemunhar que há muito mais diferenças do que semelhanças entre aquela época e agora.

Para começar, em 1992, não havia a internet nem canal de notícias 24 horas na TV, o que significa dizer que havia muito menos instantaneidade na transmissão de informações.

Em parte por isso, minha primeira aproximação ao que viria a ser o processo de impeachment de Collor se deu à distância: eu era correspondente da Folha em Madri e, num dado domingo de maio, Alon Feuerwerker, então chefe interino da Sucursal de Brasília, me ligou quando saiu a famosa entrevista em que Pedro Collor denunciava o irmão-presidente.

Alon, visionário, previa uma crise brava e me deu ordens para estar em Brasília na segunda. Cumpri a ordem.

Nunca escondi minha antipatia por Fernando Collor. Achava-o um perigoso aventureiro (ainda acho) e concordava com Leonel Brizola quando ele disse, em almoço na Folha, que uma vitória de Collor seria a-histórica. Foi.

Minha antipatia só fez aumentar, naturalmente, quando o outro irmão do então presidente (Leopoldo) disse a um companheiro da Folha, durante a campanha, que acertariam as contas comigo fosse qual fosse o resultado.

Faço sempre um esforço descomunal para evitar que meus sentimentos pessoais interfiram no trabalho de reportagem, até porque tenho um espaço para opinião, o que me permite separar opinião de informação.

Mas os fatos que foram se acumulando contra o presidente eram avassaladores. Aliás, desde sua gestão como governador de Alagoas, havia sérias indicações de que ele tinha certa dificuldade em separar o público do privado.

Aí tem-se uma segunda diferença entre 1992 e 2015: a percepção mais ou menos generalizada era a de que Collor de santo não tinha nada. Já Dilma Rousseff é tida por pessoalmente honrada até pela maioria dos seus adversários.

Só nas redes sociais é que se ataca sua honorabilidade, mas redes sociais são infelizmente inimputáveis. Fico imaginando o que diriam as redes sociais se já existissem em 1992. Seria o inferno para Collor, porque
Dilma tem quem a defenda ou a soldo ou por simpatia pessoal, partidária ou ideológica.

Collor não tinha a menor sustentação. Criara ou se apossara de um partido de ficção (o PRN, Partido da Reconstrução Nacional), ao contrário do PT, que, por muito desgastado que esteja, ainda tem raízes sociais inegáveis.

Há, no entanto, pelo menos uma coincidência entre os episódios de 1992 e a crise que vivem Dilma e o PT: os respectivos tesoureiros. Collor também tinha o seu João Vaccari Neto ou o seu Delúbio Soares. Chamava-se PC Farias (acabou assassinado em caso até hoje não esclarecido).

Ao contrário de Vaccari e Delúbio, no entanto, PC era um debochado. Meses depois do impeachment, ele, que estava preso, recebeu autorização judicial para fazer exames em Barcelona, numa clínica especializada em moléstias do sono. Coincidiu que eu estava de férias em Madri.

A Folha me deslocou para Barcelona. Fiz o popular plantão à porta do suntuoso hotel Ritz em que PC se hospedara. A horas tantas, ele topou conversar.

Ficou se queixando de como o noticiário todo em torno dele estava prejudicando seus negócios até que interrompi para perguntar se estava realmente mal de vida.

Ele, cínico, abriu os braços e apontou para os candelabros monumentais do salão em que estávamos e disse: "Você acha que quem está em dificuldades pode se hospedar num hotel como esse?".

Um pouco antes do impeachment, um auxiliar da então ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, me convidou para almoçar. Na conversa, disse que me contaria as maracutaias que não haviam feito. Deu um relatório para a direção da Folha (não dá para publicar trambiques que não foram feitos, mas dá para deduzir, por eles, o tamanho da roubalheira praticada).

Tudo somado, o ambiente que cercava o poder, na época, era tão escandaloso quanto o que vaza da Lava Jato. Mas com uma diferença relevante: a lama inundava o Palácio do Planalto (e a notória Casa da Dinda, essa mesma da qual saíram os carros de luxo apreendidos no novo escândalo que sitia Collor).

No caso Dilma, não há até aqui prova alguma que bata no Planalto ou no Alvorada.

Assim mesmo, meu palpite é o de que Collor só caiu porque seu período de governo foi marcado por duas recessões em menos de três anos, para não falar do descontrole inflacionário, só contido por seu sucessor, Itamar Franco, que dele se afastou como Michel Temer está fazendo com Dilma.

Mau agouro para a presidente?

 

 

 

Folha de São Paulo