Homem com seringa pode ter infectado duas mulheres dentro de ônibus em JP, relata médico

Homem com seringa pode ter infectado duas mulheres dentro de ônibus em JP, relata médico

O Portal paraiba.com.br começa hoje uma série de reportagens com a temática da aids. Uma abordagem diferenciada tratando o tema de diversas formas tendo enfoque principalmente no perigo da transmissão da doença. Acompanhe a partir hoje histórias reais de pessoas que tiveram suas vidas transformadas, de alguma forma, pelo HIV.

Confira abaixo a primeira reportagem da série. 

EXCLUSIVO - A história parece saída de uma corrente dessas que se espalham pela internet. Uma mulher está em um ônibus lotado e sente uma picada em alguma parte do seu corpo. Ao virar-se para ver de onde vinha a dor, vê um homem se afastando, carregando na mão uma seringa e falando no telefone “piquei mais uma”.

Apesar de parecer uma lenda urbana, segundo o médico infectologista Fernando Chagas, que atua no Hospital Cândida Vargas, a história aconteceu duas vezes em João Pessoa, com mulheres diferentes, em ônibus diferentes, mas com o mesmo resultado: as duas indo ao hospital para fazer o teste de HIV e tomar retrovirais.

As duas mulheres vítimas do ataque nos ônibus esperam pelo resultado dos testes de longo prazo e do tratamento com retrovirais, que poderiam evitar a propagação do vírus. suas identidades são preservadas pelo sigilo dos testes.

“Elas fazem o tratamento por 28 dias. Após este período a gente faz novos testes e, então, de seis em seis meses elas vêm fazer retestagem. Esperamos que o resultado seja negativo”, rogou o infectologista Fernando Chagas.

Caso similar - Anos atrás, em Guarabira, a mesma história aconteceu. O portador, no caso, sofria com a aids e com um distúrbio mental decorrente do uso de drogas. No entanto, quando questionado sobre o motivo pelo qual tentava passar adiante sua carga viral, sua resposta era bastante lúcida.

“Do mesmo jeito que a pessoa passou para mim eu também vou passar para a frente”, dizia.

Esta história, a Angelita Lucas, jornalista que há 15 anos estuda o assunto da visibilidade das pessoas portadoras do HIV. Ela conheceu o jovem em questão em uma de suas pesquisas pelo estado. Na época ele não conseguiu contaminar ninguém, o que é um alívio, mas ainda assim é preocupante que, deliberadamente, pessoas que enfrentam a Aids querem “dividir” esta dor com outras pessoas desta maneira.

“Isso é preocupante. Cada vez mais vemos, por exemplo, portadores da doença se preocupando menos com o uso de preservativos durante as relações sexuais, conscientemente negando aos seus parceiros a informação de que eles enfrentam a Aids”, lamentou Angelita.

A pena e a lei - Este ato é proibido por lei. Segundo o artigo 130 do Código Penal Brasileiro, “expor alguém, por meio de relações sexuais ou quaisquer atos libidinosos, a contágio de moléstia venérea, de que se sabe ou deve saber que está contaminado” é ilegal, e a pena é detenção de um a quatro anos de reclusão. Porém, a Aids não é considerada uma Doença Sexualmente Transmissível segundo a jurispudência, o que complica o julgamento no caso da transmissão.

Há pelo menos dois casos de pessoas condenadas por terem transmitido o vírus para parceiros sexuais. Um caso em São Paulo, em 2004, uando um motorista, portador do vírus, foi condenado a dois anos de prisão por ter passado a doença para a amante e um caso em Brasília, em 2012, quando um homem foi condenado à mesma pena de reclusão por ter transmitido a enfermidade para a namorada que teve entre os anos de 2005 e 2006. Ambos casos foram considerados lesão corporal grave.

A pena, no entanto, pode ser ampliada. Isso porque um projeto de lei pode tornar crime hediondo a transmissão deliberada do vírus. Um crime inafiançável, tão grave quanto assassinato por grupo de extermínio, estupro ou genocídio. O projeto é do deputado federal do Rio Grande do Sul, Pompeo de Mattos, que defende que, em decorrência da gravidade da doença, só a lesão corporal é pouco para mensurar a pena.

“Precisamos de uma lei exclusiva pois a Aids é uma doença que não tem cura.  Temos visto muitos jovens. Essa lei vai de encontro à causa LGBT. Esta polêmica está sendo criada no Congresso para protegermos as pessoas mais frágeis”, explicou o deputado.

Informação é tudo - Para Angelita Lucas, mais importante que punição é a correta divulgação das formas de transmissão e de prevenção da Aids. Para ela, apesar dos milhões gastos pelo governo federal em propaganda, este dinheiro é mal investido, pois não ensina a prevenção em si.

“Quando se quer divulgar um candidato político as pessoas saem às ruas espalhando santinho especificamente, formando equipes, indo às casas, às comunidades, para falar com o povo. o governo espalha panfletos, cartazes e preservativos , manda usar camisinha, mas não explica o porquê. A preocupaçao do governo é fazer divulgações alusivas a festas. Sai distribuindo camisinhas a torto e a direito. Isso é jogar latex fora”, concluiu.
 


João Thiago