Fifa critica investigação e questiona envolvimento da entidade na máfia de ingressos

Fifa critica investigação e questiona envolvimento da entidade na máfia de ingressos
Sem citar nomes, o diretor de marketing da Fifa, Thierry Weil, criticou a polícia do Rio e a 9ª Promotoria de Investigação Penal por estarem divulgando informações que não conseguem comprovar e por estarem acusando membros da Fifa de irregularidades na venda de ingressos da Copa do Mundo. O dirigente ironizou indiretamente as posturas do delegado Fábio Barucke, que lidera as investigações, e do promotor Marcos Kac, por ter afirmado que uma pessoa da Fifa liderava o esquema de câmbio negro. Kac chamou de "tubarão" o membro ainda não identificado da Fifa e que isso abalaria a estrutura da entidade.


- Não se divulga informações para a imprensa de uma investigação em andamento. Na Europa, isso não acontece. Vemos várias informações na imprensa passadas pelos investigadores que não são confirmados quando somos chamados a colaborar - afirmouWeil.


Para comprovar sua afirmação, o dirigente citou o caso específico de um cambista inglês detido no dia 21 de junho no Copacabana Palace e que foi dito pela polícia que seria dirigente do alto escalão da Fifa.


- Roger, Roger, disseram que o nome é Roger (Roger Leigh, o turista inglês detido). E descobrimos que essa é exatamente a pessoa que eles prenderam uma semana atrás (no dia 21 de junho, no Copacabana Palace). Nós denunciamos e eles prenderam. Eles dizem que tem esse Roger, que talvez seja um oficial (da Fifa)... Então checamos e descobrimos que é uma das pessoas que foram presas por eles dias atrás. Dissemos a eles, há três pessoas aqui, eles vieram e prenderam. Agora pedem informações sobre a mesma pessoa. Então não sei, podem haver dois escritórios diferentes (da polícia) trabalhando - ironizou Weil, em alusão às declarações contraditórias do delegado e do promotor.


Ao saber das declarações de Thierry Weil, o promotor Marcos Kac reagiu: afirmou que o trabalho da Polícia do Rio conseguiu reunir provas “contundentes” e que a Fifa estaria tentando fugir de suas responsabilidades”.


— O que posso dizer? Quem ri por último ri melhor. As investigações conseguiram provas contundentes e em breve, assim que chegarmos aos outros envolvidos, vamos adotar medidas cabíveis — afirmou o promotor Marcos Kac.


A reportagem de O GLOBO tentou falar com o delegado Fábio Barucke, mas ele não atendeu às ligações.


Weil disse que dois funcionários da Fifa especializados na identificação dos ingressos, na sexta-feira, foram ao Instituto de Criminalística Carlos Eboli e que a polícia apresentou apenas 141 ingressos apreendidos, número bem inferior aos mais de três mil anunciados pelo delegado Fábio Barucke e pelo promotor Marcos Kac.


- Fui a uma delegacia policial no Rio. Perguntamos sobre como poderíamos ajudar a polícia. Há muitos ingressos falsos. Mostrei um falso e o verdadeiro. Escaneamos os 141 ingressos apresentados por eles e confirmamos que são verdadeiros. O curioso é que entre eles havia seis da Copa-2010 e quatro da Copa das Confederações-2013. O que os cambistas fariam com eles eu não sei - afirmou Weil. - Há 71 ingressos de hospitalidade, sendo que apenas um tíquete era da CBF e não dez como a polícia disse aos jornalistas. Sessenta desses 141 ingressos eram para o público em geral e foram comprados pelo sistema oficial da internet por pessoas que quiseram vendê-los depois. Desses 60 ingressos, apenas dois são para um jogo futuro, o de terceiro e quarto lugares (no dia 12 de julho, em Brasília).


Weil confirmou que entre os 141 ingressos apreendidos estão 70 de hospitalidade e camarotes pertencentes a quatro empresas, como antecipou O GLOBO, ontem, na internet.


- São 58 ingressos da Relliance (credenciada pela Match Hospitality para venda de pacotes na Índia), dez da Atlanta Limited (de Dubai e que pertenceria ao cambistafranco-argelino Lamine Fofana, preso na Operação Jules Rimet), um da Jet Set Sports(para a Rússia, Suécia e Noruega) e um da Pamodzi Sports Marketing Nigeria Limited(da Nigéria). A polícia nos pediu que não divulgasse isso, mas O GLOBO publicou, então, não tenho como deixar de confirmar - afirmou Weil.


O dirigente disse que as quatro empresas já foram chamadas a dar explicações para aMatch Hospitality e que podem ser punidas.


- Essas empresas não podem revender esses ingressos, então, não poderiam estar com esse senhor Fofana. Vamos analisar com a Match o que pode ser feito. Se ficar comprovada a participação de cada uma nesa revenda ilegal de pacotes por preços superiores, eram serão descredenciadas e não poderão participar de licitações para Copas do Mundo futuras - afirmou Weil.


O dirigente negou que alguém da Fifa tenha sido interpelado pela polícia ou tenha o nome entre os 141 ingressos apreendidos e apresentados pela polícia. O francês também questionou que o argentino Humberto Grondona, filho do vice-presidente da Fifa, Julio Grondona, esteja sendo investigado pela polícia brasileira.


- Se há uma investigação paralela, que vocês (da imprensa) me digam para eu abordar o senhor Grondona e seu filho. Todos podem comprar ingressos, ele (Humberto) comprou dez em nome dele, e deu a um membro da família. Se alguém disse que ele vendeu, isso é a mídia que está colocando. Nós já conversamos com ele e há duas versões na imprensa: um de que vendeu (numa entrevista ao canal argentino TyC) e outra de que ele deu a um amigo, que foi a que ele nos contou. Eles têm direito de comprar entradas. Se pegam dez, todas sairão no nome dele e naturalmente irão ele e mais nove pessoas. Se ele deu para um amigo e o amigo vendeu para outra pessoa, qualquer um de nós está sujeito a isso. Não se pode vender por preço superior - encerrou Weil.

 

Olhar Direto