FHC crê em aprovação final do impeachment

FHC crê em aprovação final do impeachment

“Chegamos a esse ponto porque o governo errou e com apoio da sociedade”, disse o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso em plenária realizada na manhã deste sábado na Expert 2016, evento promovido pela XP Investimentos para premiar os principais escritórios e assessores credenciados à corretora.

“Hoje, conseguimos ter essa visão crítica, mas há cinco anos a situação econômica ainda era tratada como um certo “oba-oba”, o Cristo Redentor levantando o voo, mas depois explodiu. Nenhuma das duas coisas foi verdadeira. Nunca levantamos tanto o voo e talvez não tenhamos também explodido tanto”, comentou.

Segundo ele, erros fatais na condução da políticas econômicas levaram a essa situação. “Houve no Brasil e ainda há uma incompreensão por parte de setores críticos de que equilíbrio orçamentário é coisa de direita e ter orçamento frouxo é ter uma posição de esquerda. Isso é um erro. Equilíbrio orçamentário é necessário, sobretudo porque o mundo está globalizado, então não adianta fazer uma coisa muito diferente, já que os outros seguem uma regra”.

Isso, no entanto, não quer dizer que os países não possam se endividar, acrescenta o ex-presidente, mas é preciso ter controle: “Quando estourou a crise mundial, o governo fez a política correta, anti-ciclica, mas aí de repente veio o estalo e acharam que sabiam como manter o crescimento: aumenta o credito público e o consumo. Mas fazer isso sem aumentar crescimento era a receita para o desastre. Foi um erro. Não diferente o Brasil teve esse resultado. E é de se lamentar que tenha demorado tanto para se deter esse processo. Por isso eu disse, houve aplausos da sociedade brasileira. Todos acham que estavam bem e não viam as vozes críticas”.

Segundo o ex-presidente, o Brasil entrou em contramão ao processo global. “Quebramos. A verdade é que nos quebramos e houve um processo de desmoralização de muitas instituições pela corrupção que generalizou e mudou de qualidade”. A corrupção virou uma “coisa patológica”, que minou todo o País, disse.

Para ele, não será fácil colocar o País de volta aos trilhos, mas isso pode acontecer. “É importante chamar atenção para o fato de que alguns setores da sociedade amadureceram. Quando você olha hoje para essa meninada que se tornou Procurador da República, Polícia Federal, ou se tornaram juízes, vemos que é uma outra geração. Isso é reflexo da Constituição de 1988, que definiu o Ministério Público como um órgão independente do governo e a Polícia Federal que está amadurecendo nessa direção. Há também hoje a imprensa, que é livre, e a sociedade que sabe mais das coisas e quer participar. As forças renovadoras colocaram em xeque o sistema político, mas corrigir tudo isso leva tempo”, ressaltou.

Impeachment pode passar, mas teremos 2 meses difíceis pela frente

Segundo FHC, ele foi resistente ao impeachment na época de Collor, assim como foi agora. Naquela época sua preocupação era se as estruturas resistiriam, agora o risco era se a população iria apoiar. “Demorou mas aconteceu. Era o que a sociedade queria. Chegou a um ponto de paralisia de decisões de tal forma que alguém precisava governar”, disse.

Para ele, o Congresso não vai mudar sua posição e vai aprovar o impeachment, mas há dois meses pela frente que não podem ser ignorados. “O impeachment vai ser aprovado, mas teremos dois meses difíceis pela frente”. “É um momento perigoso porque dá uma força enorme a alguns senadores, que podem começar a desencadear o jogo de barganhas que a população tem horror”. Ou seja, “se correr o gato pega, se ficar o bicho come”. Segundo ele, é preciso dar um certo espaço de tempo para isso acontecer e, passado essa situação, começar a reorganizar o Brasil, que já foi dado a largada pela área econômica. “No conjunto, a equipe econômica está sendo composta por pessoas competentes”, comentou.

“Nosso sistema político acabou”

Segundo FHC, “nosso sistema político acabou e a culpa disso é da Constituição de 1988 e as interpretações que foram dadas a ela”. “Nenhum país no mundo funciona quando você tem 30 partidos no Congresso e outros 20 em preparação. Isso é a receita para o desastre. Não tem como governar, fazer maioria”, disse.

Segundo ele, a população cria a ilusão que o presidente eleito tem toda a força, porque foi eleito por maioria absoluta, mas ele precisa de ter o apoio do Congresso. “O maior partido é o PMDB, que tem 66 deputados, sobre um total de 513. Não é nada. O segundo é o PT, que tem 62, e o terceiro, o PSDB. E esses três não se somam. Então, como é que você governa? Essa é a raiz do problema. Nosso sistema é democrático e nosso Congresso é pulverizado, por conta da constituição de 88, que tinha horror ao regime autoritário e não criou limites à criação de partidos”, disse.

Volta à corrida presidencial?

Questionado se pensa em voltar à se candidatar à Presidência da República, FHC respondeu: “Se tivesse 10 anos a menos até me arriscaria, porque a situação é muito difícil, mas tenho 85 anos, voltar é abreviar a minha vida”. Na sequência, o ex-presidente disse que não acredita em “salvadores da pátria” e que não é pessimista – antes de tudo. “Olhe para a economia brasileira. Temos um dinamismo brutal, fomos capaz de ter uma agricultura fantástica. Somos o único país da América Latina que tem industria. Podem ter saqueado a Petrobras, mas ela ainda é uma grande empresa. Vocês são exemplos disso. Temos uma força renovadora grande no Brasil. Eu vou apoiar com energia quem me pareça que tem pinta para avançar”, destacou.

Antes de finalizar a plenária, FHC disse não queria deixar como sua mensagem final se voltaria ou não, porque ele não volta. “O que eu quero deixar é que temos que continuar acreditando, porque vai dar certo”.

 

 

 

IG