Falta de dinheiro dificulta pesquisas sobre microcefalia

Falta de dinheiro dificulta pesquisas sobre microcefalia

O Bom Dia Brasil abriu a edição desta sexta-feira (19) com uma reportagem que ajuda a entender por que o Brasil chegou tão despreparado a esse surto de zika e microcefalia, com destaque para a médica de Campina Grande, Adriana Melo, pesquisadora das doenças.

Em três estados, os repórteres do Bom Dia Brasil foram conversar com pesquisadores que são pioneiros no estudo dessas doenças. E o quadro que eles traçaram é preocupante. Faltam dinheiro, apoio e condições de trabalho.

É quando as luzes se apagam e todos voltam para casa que começa o terceiro turno de trabalho no Hospital Universitário Oswaldo Cruz, no Recife. O corredor mostrado na reportagem é do Departamento Infantil. São 8 horas da noite, quase todos já foram embora. Quase. Porque em uma sala o trabalho não para, nem mesmo nos domingos ou nos feriados.

As quatro médicas aceitaram o desafio de entender o que acontece com as crianças que nascem com microcefalia. Querem acompanhar cada paciente por dois anos para ver como eles se desenvolvem. Um trabalho caro que exige exames constantes e detalhados. “Como é tudo muito novo em relação ao vírus e essa relação ficando cada vez marcada, então a gente tem que avaliar com exames, com a avaliação clínica dos especialistas e a necessidade, às vezes, de apoio de um projeto de pesquisa ter financiamento”, diz a médica infectologista Ângela Rocha.

Elas fizeram projetos e concorrem em diversos editais de institutos que disponibilizam verbas para pesquisa. Mas ainda não receberam resposta. “A gente vai tentar o nosso financiamento para essas pesquisas e a gente possa, realmente, melhorar o atendimento, não só o atendimento, mas compreender melhor a doença”, explica Regina Coeli, também médica infectologista.

Já Adriana Melo, considerada pioneira nas pesquisas sobre a zika e a microcefalia, revela que já pensou em desistir devido a falta de recursos. “Tem sido um trabalho árduo, não tem sido fácil, mas quando eu penso em desistir, que eu olho para uma mãe, que ela me agradece, pelo abraço, pelo fato de eu ter ficado ao lado dela, aí eu desisto de desistir”, afirma a neuropediatra Adriana Melo.

Adriana Melo percebeu, no consultório, que estava havendo um aumento no número de casos de malformação na cabeça dos bebês, mas demorou a ser ouvida. “Me sinto frustrada de saber que posso ajudar e não tem como ajudar porque não tenho recursos, o que a gente está vendo agora é um grupo de voluntários, a gente está bravamente brigando por essas respostas”, diz Adriana.

No Rio de Janeiro, é com verbas públicas voltadas para o vírus HIV e outras doenças que um médico têm conseguido avançar nas pesquisas sobre o virus da zika. Mas pode não durar muito tempo. “Esse tipo de ação nossa, que é meio, assim, guerrilheira, ela tem um certo fôlego, depois ela termina”, explica o médico Amílcar Tanuri.

Amílcar é chefe do setor de Virologia da UFRJ. Ele e uma equipe de 12 pessoas fizeram uma das descobertas mais recentes sobre a zika e a microcefalia: identificaram o vírus nos cérebros de bebês que morreram pouco depois de nascer. Mas os pesquisadores podem ir além. “O mais importante agora é que o governo, o Ministério da Saúde, o da Ciência e Tecnologia abram um chamado de edital para chamar a comunidade científica para responder perguntas importantes, tipo: qual é a taxa de transmissão vertical do vírus, como ele agride o sistema neurológico da criança, atualmente falta o dinheiro da pesquisa básica, ou dessas perguntas, tem que acontecer isso, a gente ainda está na emergência, a gente tem que passar da fase da emergência para a fase de perguntas e respostas”, acrescenta Amílcar Tanuri.

O Bom Dia Brasil pediu uma entrevista com o Ministério da Saúde sobre os recursos para pesquisa sobre a zika. O Ministério respondeu em nota que lançará em breve sete editais para convocar pesquisadores para desenvolver projetos com foco na zika.

O Ministério também destacou que mantém parcerias de pesquisa com instituições americanas e que investiu R$ 4,4 bilhões nos últimos três anos na reestruturação de laboratórios públicos. Disse ainda que as pesquisas estão sendo feitas em centros de excelência.

Fiocruz, em Pernambuco e no Rio de Janeiro, conduz pesquisas sobre o vírus da zika e sobre uma vacina.

No Norte, o Instituto Evandro Chagas, no Pará, faz parte do primeiro acordo internacional para criar a vacina da zika. É em parceria com a Universidade do Texas, nos Estados Unidos. O investimento brasileiro previsto é de quase US$ 2 milhões ao longo de cinco anos.

São Paulo também participa da corrida por uma vacina. O Ministério da Saúde diz que está em andamento uma nova proposta de investimento especificamente para vacina da zika no Instituto Butantã.

 

 

 

 

 

 

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