Ex-ministro prevê que eleição será a pior da história do PT

Ex-ministro prevê que eleição será a pior da história do PT

Ex-ministro da Comunicação Social do governo Dilma Rousseff, Edinho Silva prevê que as eleições de 2016 “serão as piores da história do PT”, devido à falência dos modelos de funcionamento e financiamento partidário no Brasil.

Em entrevista à Folha, Edinho defendeu um “pacto político” para que o Brasil saia da crise e volte a crescer. Ele prega a continuidade da Lava Jato, mas diz que deve se estabelecer um prazo por meio do diálogo entre poderes para que o país retome o equilíbrio.

O petista, que será candidato à Prefeitura de Araraquara (SP), é investigado na operação. Ele disse que se sente “injustiçado” por ser acusado de pressionar empreiteiros por doações para a campanha de Dilma em 2014.

Afirma ainda que se arrependeu de ter atuado como coordenador financeiro.

Folha – O PT sofreu muito com a crise política e a Lava Jato. Qual sua previsão para as campanhas deste ano?
Edinho Silva – Vivemos uma crise geral do modelo político-partidário e de financiamento partidário, por isso tenho certeza que todas as grandes siglas serão afetadas. A que mais sofrerá é o PT, por ser governo e estar no quarto mandato. Então nas eleições municipais desse ano é o partido que mais vai perder, sem dúvida. Será a pior eleição da nossa história.

Como o PT pode reconstruir sua imagem?
Havia uma expectativa de que o PT poderia ser o diferente, o novo. E um partido, para ser competitivo, crescer, cada vez mais se move pela lógica eleitoral. Esse foi o nosso grande erro, não romper com o modelo de financiamento político-partidário do país. Em algum momento o PT terá que fazer uma autocrítica perante à sociedade.

Não deveria já ter feito?
Talvez, para que possamos efetivamente reconhecer nossos erros, seja necessário que esse processo todo [a Operação Lava Jato] avance para termos dimensão até onde ele chega. Mas o partido terá que fazer esse diálogo.

Por que o PT não conseguiu viabilizar-se como o diferente?
O PT combateu a corrupção, criamos instrumentos de controle e fiscalização da estrutura administrativa. O equívoco foi não fazer diferente em relação ao modelo público de financiamento. Esse é o modelo da relação do Estado com o mundo empresarial. Nos Estados Unidos, a ingerência das empresas na política talvez seja maior, mas a legislação deles é diferente. Nós fizemos da relação empresarial com os governos em diversas instâncias um modelo, e ele perdurou até os dias de hoje.

Um modelo promíscuo, não?
Promíscuo porque a legislação brasileira é hipócrita. Nunca entendi porque o lobby não foi regulamentado no Brasil, ele existe. Em qual modelo econômico semelhante ao nosso o lobby não é institucionalizado?

Tem arrependimento de ter sido tesoureiro da campanha de Dilma de 2014?
Seria hipócrita se falasse que não. Estou pagando um desgaste que não mereço, porque não cometi irregularidades. Assumi essa tarefa por ter certeza que poderia fazer diferente, como fiz. Sabia que era um momento difícil.

Tem medo de ser preso?
Não tenho receio de ser preso, não cometi nenhum crime e nem vou cometer. Esse risco para mim não existe.

Mas o senhor foi citado em delações de empreiteiros.
Recebi o convite para ser coordenador financeiro para blindar a campanha da presidente Dilma e não para reproduzir o que já existia e era investigado. Por isso me sinto injustiçado. Criamos um sistema de auditoria interna, fazendo varreduras no CNPJ das empresas que nos doaram. Vou provar. E foi a própria Dilma quem me orientou.

Delatores dizem que o senhor os pressionou a doar.
Criou-se a tese de que eu arrecadei pressionando empresário. Quem me conhece sabe que não sou capaz de pressionar ninguém, não é meu perfil. Agora, tudo que vem da campanha de Dilma é oriundo de pressão ou ilegal, e dos outros candidatos não?

Acredita que o caixa dois aumentará com a proibição da doação empresarial?
Os candidatos terão muito receio de usarem laranjas ou fazer caixa dois. É a primeira eleição após essa crise ficar explícita. Mas não acredito que a legislação atual perdure. É um avanço, mas não tem como financiar campanha nacional com doação de pessoa física. Defendo uma saída via financiamento público de campanha.

Os áudios anulados pelo STF de conversas de Lula e Dilma ajudaram no processo de impeachment?
Eles impediram a posse do ex-presidente Lula como ministro. Se ele tivesse ido para a Casa Civil naquele momento, poderia ter criado outra expectativa em relação ao governo Dilma, tanto do ponto de vista da base parlamentar, como empresarial e da sociedade de forma geral. Seria uma união de forças entre a presidente Dilma e o ex-presidente Lula.

O que pode acontecer no país com uma eventual prisão do ex-presidente Lula?
Não é bom para o país a ideia de que a pessoa que é investigada será presa. As pessoas têm o direito de se defender. A prisão temporária ou preventiva só se justificam se o indivíduo traz risco à sociedade ou pode obstruir a Justiça. O Lula é ainda a maior liderança popular da história do Brasil. Quando for chamado para prestar esclarecimento, explicará o que o envolve. Não tenho dúvida de que vai provar sua inocência.

Os governos estão pautados pela Lava Jato?
A crise econômica se explica pela instabilidade política. É fundamental que tudo seja investigado, mas é importante que esse processo seja concluído o mais rápido possível para que o país volte a funcionar. É importante também que o processo de impeachment seja resolvido. A presidente Dilma está fazendo a sua defesa. Estamos falando de uma mulher que não tem denúncias que atinjam sua honra.

Acredita mesmo que a volta de Dilma pode resolver a crise?
Ela mesma tem manifestado abertura para a construção de uma saída para crise. Muita gente defende o plebiscito para que se consulte a sociedade sobre a antecipação das eleições. Essa é uma possibilidade com que muita gente trabalha, inclusive do entorno da presidente Dilma.

Para o senhor, o plebiscito é uma saída?
Pode ser, desde que seja construído de forma democrática, e isso tem que ser com a presidente no cargo. O plebiscito não pode ser uma medida unilateral. Se houver um pacto político canalizado para a convocação de um plebiscito para que a sociedade escolha o caminho de saída da crise é legítimo.

Acredita no diálogo com siglas como PMDB e PSDB?
Se queremos ter maturidade para superar esse momento, temos que sentar juntos. As investigações têm que continuar, mas é importante estabelecer um prazo para restabelecer a estabilidade política. A saída dessa crise também passa pelo diálogo entre os poderes, o Legislativo, Executivo, o Ministério Público.

Seria desacelerar a Lava Jato?
Não, ela deve continuar. Mas há grandes empresas envolvidas. Se queremos retomar o crescimento, não podemos abrir mão da estrutura de engenharia que o Brasil construiu. A leniência é uma saída para que as empresas paguem o preço que tiverem que pagar. Elas têm que voltar a gerar emprego.

 

 

 

 

 

 

Folha de São Paulo