Estado Islâmico surgiu da invasão do Iraque pelos EUA, diz autor americano

Estado Islâmico surgiu da invasão do Iraque pelos EUA, diz autor americano

O que está na origem do surgimento do Estado Islâmico (EI) não é a religião muçulmana, mas questões políticas relacionadas ao histórico ocidental colonialista, ao apoio dos EUA a regimes autocráticos no Oriente Médio e à invasão americana do Iraque, avalia o professor de religião Todd Green, que acaba de lançar o livro The Fear of Islam: An Introduction to Islamophobia in the West(O Medo do Islam: Uma Introdução à Islamofobia no Ocidente).

“Não podemos contar a história do ISIS separada da política externa dos Estados Unidos”, disse ao Estado, usando uma das siglas pelas quais o grupo é conhecido. Segundo ele, a gênese do EI está na invasão do Iraque pelos Estados Unidos, que abriu caminho para o surgimento da Al Qaeda no Iraque, a organização precursora do grupo que hoje controle parte dos territórios daquele país e da Síria.

Professor de religião do Luther College, em Iowa, Green é crítico da ativista Ayaan Hirsi Ali, que nasceu na Somália, foi submetida à mutilação genital e hoje vive nos Estados Unidos. “Ela ignora a história de violência ocidental, incluindo o colonialismo”, afirma. “Ela coloca toda a culpa nos muçulmanos e no islã e há muitos no Ocidente que a adoram por isso.”

A seguir, trechos da entrevista:

O sr. escreveu um artigo no qual disse que perguntar se o Estado Islâmico é islâmico ou não é uma questão equivocada. Por quê?

É uma pergunta simplista e a resposta não é tão relevante como se supõe. O grupo muitas vezes invoca ensinamentos do islã para tentar justificar o que está fazendo. Mas isso não nos diz nada sobre o que realmente motiva o ISIS (outra sigla pela qual o grupo é conhecido).

A presunção por trás da pergunta é a de que se nós entendermos o aspecto religioso, nós entenderemos o que motiva o ISIS e poderemos derrotá-lo. Nós temos o mesmo pressuposto em relação à Al Qaeda.

A maneira mais fácil de complicar essa questão é perguntar como o islã pode produzir o ISIS e, ao mesmo tempo, Malala Yousafzai, a mais recente vencedora do Prêmio Nobel da Paz? Ambos se baseiam no islã como fontes de inspiração. O que o foco no islã realmente nos diz sobre o que move um grupo como ISIS? Há muitas forças mais complicadas, sociais, econômicas e políticas. São as condições políticas que levam à emergência do ISIS.

A pergunta também é problemática porque desvia nossa atenção de uma questão mais perturbadora: qual o papel da política externa dos Estados Unidos em criar as condições que levam ao surgimento do ISIS. Não haveria ISIS se não fosse pela invasão e ocupação do Iraque pelos EUA, que abriu a porta para a Al Qaeda no Iraque, o grupo precursor do ISIS. Não podemos contar a história do ISIS separada da política externa dos Estados Unidos.

A principal força é política?

Sim. E o mesmo ocorre com a Al Qaeda. Quando você lê e estuda os textos de Osama bin-Laden, vê que ele se refere com frequência à Palestina, às tropas americanas, à Arábia Saudita, a intervenções militares americanas, à história do colonialismo americano. Isso não torna o que ele faz correto, da mesma maneira que não justifica os atos do ISIS. Mas se nós queremos explicar como esses grupos emergem, nós precisamos ser honestos em relação às circunstâncias políticas que dão origem a eles.

Uma das histórias interessantes em relação ao ISIS envolve o jornalista francês Didie François, mantido em poder do grupo por cerca de dez meses e libertado há um ano. Quando ele fala de sua experiência, ele diz que quase todas as suas conversas com membros do ISIS eram políticas, não eram religiosas.

Se é uma questão política, qual a melhor maneira de enfrentá-la?

Se vemos como um problema político, nós focamos em soluções políticas. Mas se vemos como um problema do islã, a resposta é a de que essa é uma questão que os próprios muçulmanos devem resolver. Os Estados Unidos tendem a ignorar essas realidades políticas. Se você lê o relatório da Comissão do 11 de Setembro, a conclusão final sobre por que ele ocorreu está relacionada ao islã, a um problema interno do mundo islâmico. Não há nenhuma reflexão naquele documento sobre o papel desempenhado pelos Estados Unidos, incluindo nosso apoio a regimes autocráticos e terríveis, que é amplamente conhecido no Oriente Médio.

E o conflito Israel-Palestina?

Até que haja uma boa solução para esse conflito sempre haverá tensões. Mas não vejo vontade política suficientes nos Estados Unidos para fazer o que é necessário para resolvê-lo. O apoio a Israel ainda é pouco questionado na elite política.

Qual é sua resposta para Ayaan Hirsi Ali (que nasceu na Somália e hoje vive nos EUA), para quem a violência do Estado Islâmico e de outros grupos extremistas tem raízes no islã e há uma necessidade de reformá-lo?

No meu livro eu falo bastante de Ayaan Hirsi Ali. Ela é uma ex-muçulmana que usa seu status de iniciada para criticar o islã. Sua audiência não são os muçulmanos. Sua audiência é o Ocidente. Mas quando examinamos seus argumentos, eles se desmontam rapidamente. Em primeiro lugar, houve vários movimentos de reforma do islã, principalmente a partir do século 19. Em segundo lugar, a ideia de que a violência é conectada de maneira orgânica ao islã pressupõe que 1,6 bilhão de pessoas no mundo interpretam os textos e tradições do islã da mesma maneira, o que não é verdade. Na última década, três vencedores do Prêmio Nobel da Paz eram muçulmanos. O Corão tem passagens que encorajam atos de violência ou guerra justificada, mas encontramos isso na Bíblia também.

Minha maior crítica em relação a Hirsi Ali é que ela ignora a história de violência ocidental, incluindo o colonialismo. Ela ignora a predominância do racismo na história do Ocidente. Ela coloca toda a culpa nos muçulmanos e no islã e há muitos no Ocidente que a adoram por isso.

Eu trato da questão da violência do islã no meu livro, mas também abordo a questão da violência ocidental. A percepção de muitos políticos e de pessoas como Ayaan Hirsi Ali é a de que o islã equivale à violência e o Ocidente, à paz. O Ocidente tem uma história de escravidão, de exploração de populações nativas e algumas tentativas de genocídio. Nós torturamos, e não apenas na guerra ao terror. Isso é violência e é parte da percepção que as pessoas têm dos Estados Unidos em outras regiões. Mas nós não falamos disso. Nós falamos do islã e a violência.

E qual é a solução?

É necessário ter uma significativa reavaliação da política externa no Ocidente, em especial nos Estados Unidos. Nós temos um histórico muito ruim quando se trata de apoiar democracias no Oriente Médio. Nós favorecemos muitos regimes autocráticos em razão da estabilidade que eles nos oferecem.

Em casa, nós temos que construir mais relações entre muçulmanos e não-muçulmanos. Nos Estados Unidos quase dois terços da população diz que não ter uma relação pessoal com alguém que é muçulmano. Quando você não conhece um muçulmano, é fácil permitir que toda a sorte de desinformação preencha esse vácuo. Mas quando tem amigos, vizinhos e colegas de trabalho que são muçulmanos é mais fácil contextualizar a situação diante do ISIS. Outra questão é a educação. Nós não sabemos o suficiente sobre o islã.

O fracasso da Primavera Árabe acaba justificando essa visão mais realista e pragmática da política externa americana, não?

Certamente há muita desilusão com a Primavera Árabe. Mas seu fracasso não decorre do fato de a maioria da população não querer a democracia, mas sim do enraizamento desses regimes autocráticos no Oriente Médio e da ambivalência do Ocidente em relação a quem apoiar na região. No começo da Primavera Árabe no Egito, a administração Obama estava fortemente ao lado de (Hosni) Mubarak, que era um clássico ditador, com um histórico horrível na área de direitos humanos. Hillary Clinton o chamava de amigo da família. Só dias antes de ele deixar o poder é que os Estados Unidos começaram a adotar um tom diferente.

Quando olhamos para pesquisas Gallup, nós vemos que há uma grande parcela da população no Oriente Médio que quer democracia. Isso para mim é promissor. Mas regimes autocráticos enraizados não desaparecem facilmente.

Como o sr. define islamofobia?

Minha definição básica é o medo, hostilidade e ódio em relação aos muçulmanos e ao islamismo e as práticas discriminatórias e excludentes que decorrem disso. E um sentimento enraizado na mentalidade de muitos governos e nações ocidentais, onde essas ansiedades são proeminentes em amplos segmentos da população. Há uma longa história, que remonta à Idade Média e obviamente vem até o Século 21. Não é um medo novo, ainda que algumas das forças que o movam hoje sejam um pouco distintas do que eram 500 ou 600 anos atrás.

E quais são essa forças?

Eu atribuo a atual islamofobia a três forças. A primeira é política. Há uma longa história de imperialismo ocidental que constrói os muçulmanos como o inimigo. Em parte pela percepção de que muçulmanos ficam no caminho de ambições imperialistas, seja no choque com o Império Otomano no século 16, no colonialismo europeu do início do Século 20 ou no imperialismo americano do século 21. Os muçulmanos são percebidos como um grande obstáculo e frequentemente são desumanizados.

As outras duas causas são a falta de conhecimento que muitos ocidentais têm em relação ao islã. Muito poucas pessoas nos Estados Unidos ou na Europa realmente sabem alguma coisa sobre tradições e história islâmicas. A maioria do que pensamos que sabemos vem principalmente da mídia, que tende a associar o islã à violência e ao terrorismo.

Ou vêm de pessoas dedicas a produzir medo, como Pamela Geller. É o que chamo no meu livro de indústria da islamofobia. Isso cria um vácuo de ignorância que faz com que seja mais difícil ver os muçulmanos como humanos, como pessoas que compartilham muitos dos valores, esperanças e medos que nós temos.

Qual o papel de Pamela Geller nessa indústria?

Às vezes me refiro a isso como islamofobia profissional. Quase sempre são ativistas ou blogueiros de direita, às vezes políticos na Europa e nos Estados Unidos, que ganham a vida demonizando e desumanizando muçulmanos. Nós não saberíamos quem eles são além de sua devoção a esse empreendimento. Não é um grupo de pessoas que ocasionalmente critica o islã. São pessoas que se beneficiam financeira e politicamente do esforço de demonizar muçulmanos.

O atentado contra a revista Charlie Hebdo na França e a tentativa de atacar o concurso de caricaturas de Maomé no Texas facilita a vida dos que promovem a islamofobia, não?

É difícil não concluir que isso impulsiona a carreira de alguém como Pamela Geller. Eu acredito que ela explora esse tipo de tragédias. O concurso de caricaturas de Maomé no Texas era uma resposta ao tiroteio contra a Charlie Hebdoem Paris. De muitas maneiras, o evento era uma exploração da grande tragédia que ocorreu.

Como o sr. compara os dois episódios? Geller apresentou o seu evento como uma defesa da liberdade de expressão.

Eu não acredito que nenhum dos eventos deve ser tratado como uma questão de liberdade de expressão. Certamente não acredito que esse é o tipo de discussão que deveríamos ter em relação ao evento de Geller. Não era sobre liberdade de expressão. Geller gostaria que falássemos de que isso é um conflito entre a proibição da liberdade de expressão do islã. Mas não é sobre isso. É sobre ódio e é sobre isso que deveríamos falar em relação a Geller.

No caso do Charlie Hebdo é um pouco mais complicado porque a revista se dedica à sátira e ela não é dirigida apenas contra muçulmanos. Tenho uma série de críticas em relação à Charlie Hebdo e tenho uma divergência fundamental quanto à definição do que é sátira. E não penso que tudo o que eles fazem é sátira. Mas eles não criticam apenas muçulmanos, enquanto Geller só ataca muçulmanos.

Se o que Charlie Hebdo faz não é sátira, o que é?

É humor ruim. Não sei nem se humor é a palavra correta. Certamente é comentário político, mas minha definição, sátira tem por alvo pessoas em posição de poder ou privilégio. E os muçulmanos na França e no restante da Europa não estão em posição de poder e privilégio. Eles integram comunidades marginalizadas, não têm muitos líderes proeminentes e tendem a não ter voz. Focar uma comunidade que já é marginalizada fica fora do propósito da sátira política. Sátira é realmente sátira quando atinge aqueles que estão em posição de poder e privilégio.

 

 

Estadão