Escolha política na disputa presidencial abala amizades

Escolha política na disputa presidencial abala amizades

Conforme o dia 26 de outubro se aproxima, cada debate entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) apresenta aumento no tom dos ataques. E, nas redes sociais, esse clima reverbera, reproduzindo o acirramento dos ânimos entre os eleitores também. Na web, as discussões extrapolam o campo dos debates entre os adversários políticos e ganham como protagonistas amigos e familiares, que entram em conflito por conta de suas escolhas.

Assistente financeiro, João Renato Gomes excluiu quatro conhecidos de seu perfil no Facebook. Eleitor de Aécio, ele conta que conteúdos não confiáveis compartilhados por essas quatro pessoas geravam debates pouco construtivos. Com isso, Gomes achou melhor desfazer a amizade virtual.

— São blogs que difundem notícias falsas ou artigos em que são omitidos detalhes importantes. Em outros casos, a exclusão aconteceu por comentários hostis. Eu me via tentando convencer alguém que, na verdade, não estava disposto a mudar de ideia — explica João Renato.

O clima de hostilidade também levou o jornalista William De Lucca a romper relações com contatos virtuais. Cerca de dez pessoas já não figuram mais em sua lista de contatos na rede.

— Eu respeito todos os posicionamentos políticos. O problema é quando a pessoa passa a usar de discriminação para embasar seu voto — defende William, que vai votar em Dilma.

UMA TUCANA, OUTRA PETISTA, ADVOGADAS PRESERVAM AMIZADE

Enquanto eleitores se dividem nas redes, especialistas buscam explicações para esse fenômeno. O psicólogo Pedro Del Picchia, que fez mestrado em Comunicação com tese sobre redes sociais, entende que este comportamento aguerrido é, de certo modo, próprio das redes sociais:

— As redes têm o exagero. Se você não for exagerado, não consegue aparecer. Então, você sente que precisa fazer seu ponto de vista valer de uma só vez. Daí, você exagera, e pronto. As coisas vão se polarizando.

Mas, ainda que haja discussão, as amigas Paula Morgado, de 22 anos, que votará em Dilma, e Tamara Porto, de 23, que votará em Aécio, provam que é possível votar em candidatos diferentes sem abalar a amizade. As duas se conheceram na Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, e se formaram juntas no início deste ano. O forte gosto pela política gerou identificação entre elas, e são os mesmos ideais de um país melhor que impedem o fim da amizade.

— Nós queremos Saúde e Educação de qualidade. Queremos esses projetos sociais indo para frente. Só que o meio para isso é diferente. Ela acha que a Dilma é o melhor meio, eu acho que é o Aécio. Para ela, a economia está boa, para mim está ruim, mas nós nos aceitamos assim — explica Tamara.

Paula diz que, apesar de muita gente defender o contrário, ela acredita que futebol, religião e política devem ser discutidos, ainda que sejam temas espinhosos por mexerem com aquilo em que cada um acredita. Ela ressalva, porém, que preferências políticas não podem se transformar em torcidas organizadas violentas.

— Um dia você discute, mas, no outro, tudo deve estar normal. Acho que conseguimos manter o respeito, porque, primeiro, somos amigas. Não queremos ultrapassar os limites da discussão justamente pela amizade — defende.

Para Tamara, muitas discussões poderiam ser resolvidas com uma pesquisa mais atenta na internet.

— A gente vê até mesmo os discursos dos próprios candidatos se contradizerem entre si, principalmente em números — completa.


 
 

O Globo