Em primeira entrevista pós-impeachment, Dilma minimiza alianças PT-PMDB nas eleições municipais

Em primeira entrevista pós-impeachment, Dilma minimiza alianças PT-PMDB nas eleições municipais

"Ha vários PMDBs nos municípios, você tem características das mais diferentes (no partido)", disse Dilma Rousseff, questionada pela BBC Brasil sobre as centenas de alianças nas eleições municipais de 2016 entre PT e o partido que a substituiu na Presidência.

Apesar de classificar o governo de Michel Temer como "golpista" e "ilegítimo", a agora ex-presidente afirmou que "é baixa a correspondência entre o que um partido faz e o que todos os seus membros fazem".

"A sua pregunta a mim não constrange", continuou Dilma, em sua primeira entrevista após o impeachment.

Dois dias depois de ser oficialmente afastada da Presidência, a petista convocou nesta sexta-feira jornalistas de veículos internacionais para uma entrevista coletiva no Palácio da Alvorada, ao lado de seu advogado e ex-ministro José Eduardo Cardozo.

Pelo menos 200 cidades brasileiras terão chapas unindo petistas e peemedebistas como candidatos a prefeitos e vice. Estima-se que em mais de mil municípios os dois partidos farão parte da mesma coligação.

"Acho que essa é a crise política pela qual o país passa", disse a petista, afirmando que o fim das diferenças ideológicas dentro dos partidos é fundamental para a governabilidade e para o fim do "toma lá da cá".

"Por que me achavam dura? Porque é difícil (dialogar) se você tiver algumas convicções", disse. "Eu recusava algumas coisas e recusei sistematicamente."

 

'Assim começam as ditaduras'

Ao comentar a violência nos protestos contra a posse de Michel Temer, especialmente em São Paulo, a ex-presidente disse que "assim começam as ditaduras".

"Aí vem a repressão e fura o olho de uma menina. Depois vem a repressão e mata."

A ex-presidente se referia à estudante Deborah Fabri, de 19 anos, que perdeu a visão do olho esquerdo apos ser atingida por estilhaços de bombas de efeito moral disparadas pela Policia Militar de São Paulo, na ultima quinta-feira.

 

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou que está tentando conversar com a estudante.

"A SSP entrou em contato com a Universidade do ABC, onde estuda Deborah Fabri, para que sejam oferecidos os meios necessários para a localização dela e para que a Polícia Civil possa registrar o fato em que ela alega ter se envolvido e dar início às devidas investigações, uma vez que ela não registrou o boletim de ocorrência", diz a SSP.

 

Janaína Paschoal e Lula

Questionada sobre o comentário da advogada Janaína Paschoal, que em seu discurso de acusação no Senado falou que o fazia "pelos netos" da petista, Dilma disse que "não respeita uma pessoa capaz de falar o que falou".

"O comportamento da doutora é o comportamento de uma pessoa cujas convicções não se parecem com as minhas, nem do ponto de vista político, nem cultural."

Esse foi um dos dois momentos em que a ex-presidente perdeu o bom humor - durante toda a conversa, Dilma sorriu várias vezes, especialmente quando questionada se apelará "infinitas vezes" ao Supremo Tribunal Federal para reverter o processo que a cassou ("daqui para frente ele só vai fazer isso da vida", disse, rindo, a Cardozo).

O outro momento em que se irritou foi quando foi questionada sobre a falta de apoio inicial do PT a sua proposta de novas eleições diretas.

"Eu acho que o PT tomou uma decisão e agora esta percebendo que a democracia é muito melhor para nós todos", afirmou. "Nao tenho nenhuma mágoa do PT. Essa história de tentar me indispor com o Lula, sugiro que vocês desistam. É uma perda de tempo."

 

Direitos políticos

A entrevista de Dilma aconteceu em uma das salas de reunião do Palácio do Alvorada - 19 cadeiras estavam ocupadas por jornalistas vindos do Chile ao Egito, dos Estados Unidos ao Reino Unido.

Dilma rebateu o discurso de Temer, que afirmou que não irá tolerar ser chamado de golpista. "No Brasil, ha uma grande inconformidade nos golpistas com a palavra golpe. Essa inconformidade decorre do fato de que se tenta de todas as maneiras evitar que fique claro, evidente, o caráter deste processo."

Pela primeira vez, Dilma comentou a separação das votações sobre o afastamento da Presidência e a suspensão de seus direitos políticos.

"Eu acho que é estranhíssima essa dupla votação. Vota de um jeito numa votação e depois vota de outro em outra? Em Minas, a gente ficaria desconfiado. Nós mineiros somos muito desconfiados", afirmou.

Jose Eduardo Cardozo tentará que o STF anule toda a votação do impeachment no Senado.

"Vamos entrar na segunda ou na terça com um novo mandado de segurança, porque vamos discutir outras duas questões", afirmou.

"Uma é o vício do processo, porque entendemos que não foi respeitado o devido processo legal. Antes mesmo de a defesa produzir provas, senadores já diziam que iam votar pelo impeachment. Isso é violação flagrante do direito de defesa", disse Cardozo.

A segunda seria a falta de "justa causa" no processo.

"Os fatos colocados efetivamente não autorizam a decretação do impeachment porque o impeachment exige pressupostos jurídicos e avaliação política. Sem pressupostos jurídicos, não pode haver avaliação política e nós vamos atacar isso", afirmou.

Dilma afirmou que deve ir imediatamente para Porto Alegre, onde afirmou que pode "ficar um tempo".

 

BBC Brasil