Em meio à crise do setor, Brasil começa a produzir etanol de segunda geração em escala comercial

Em meio à crise do setor, Brasil começa a produzir etanol de segunda geração em escala comercial

Em meio a uma das maiores crises do setor sucroalcooleiro, o Brasil entrou num seleto grupo de países que já produzem em escala comercial o chamado etanol de segunda geração (2G), feito a partir da palha e do bagaço da cana-de-açúcar. É um combustível com produção pelo menos 20% mais barata que o etanol de primeira geração (feito do caldo obtido com moagem da cana), um dos mais limpos do mundo, e o processo, que é mais moderno, aumenta em até 45% a produtividade por hectare. Com essa tecnologia inovadora, os usineiros poderão elevar sua lucratividade sem ter que aumentar a área plantada.

— O etanol de segunda geração não é a solução para a crise do setor, que tem outras razões mais profundas. Mas pode aumentar a produtividade por hectare, sem a necessidade de ampliar a área de canaviais. Também tem a vantagem de utilizar uma matéria-prima que não tinha valor comercial até então — diz Alan Hiltner, vice-presidente de novos negócios da GranBio, a primeira empresa brasileira a produzir o etanol 2G na usina Bioflex 1, erguida na cidade de São Miguel dos Campos, em Alagoas.

No mundo, além do Brasil, somente os Estados Unidos e a Itália já produzem o etanol 2G. A China anunciou recentemente que vai investir US$ 325 milhões para construir a maior planta do mundo desse tipo de combustível. O etanol 2G é resultado da quebra das cadeias de celulose do bagaço e da palha da cana, com a utilização de enzimas, processo diferente do método da moagem.

Calcula-se que o Brasil poderá ampliar em até 50% sua oferta de etanol com essa nova tecnologia. Este ano, o país vai produzir 27,6 milhões de litros de álcool, o segundo maior volume do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Além disso, o etanol 2G tem a vantagem de ser obtido com um processo menos poluente em intensidade de carbono. O cálculo leva em conta as emissões de CO2 desde a coleta da matéria-prima até o transporte e foi feito pela instituição americana Air Resources Board (ARB).

De acordo com Bernardo Gradin, presidente da GranBio, a capacidade total da usina em Alagoas é de produzir 82 milhões de litros por ano e deve ser atingida em 2015. O etanol 2G da BranBio será destinado ao mercado interno, mas quando ganhar escala, pelo menos 50% serão exportados para a Califórnia, nos Estados Unidos. Nos próximos dez anos, a empresa pretende instalar mais dez plantas no país, em parcerias com usinas de primeira geração (que fazem o plantio da cana) para fornecer a palha e o bagaço. Nessas plantas, serão investidos cerca de R$ 4 bilhões. A segunda usina deverá entrar em operação já em 2016. Até 2020, a expectativa é de produção de 1 bilhão de litros do etanol 2G.

O investimento na planta de Alagoas, que começou a ser construída em 2012, foi de US$ 190 milhões. Outros US$ 75 milhões foram investidos no sistema de cogeração de vapor e energia elétrica em conjunto com a Usina Caeté, do Grupo Carlos Lyra. O sistema é alimentado com bagaço de cana-de-açúcar e lignina – subproduto gerado no processo de produção do etanol de segunda geração. Além de atender às necessidades da usina, a caldeira gerará um excedente de energia elétrica de 135.000 MWh/ano – o suficiente para abastecer uma cidade de 300 mil habitantes. O excedente será vendido no mercado.


 

O Globo