Economia mundial vive contrachoque do petróleo

Economia mundial vive contrachoque do petróleo

Desaceleração de crescimento na China, na Índia e no Brasil, estagnação econômica, risco deflacionário e desemprego na Europa, recessão no Japão, sanções contra a Rússia e Irã, guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. Ainda convalescente, a economia mundial já enfrentava instabilidade profunda em 2014, mas um novo baque teve início.

No intervalo de seis meses entre o fim de junho e o início de dezembro, o preço do barril de petróleo, pilar do capitalismo industrial contemporâneo, caiu 38%, transferindo cerca de US$ 1,3 trilhão em recursos, ou 2% do PIB mundial, de países produtores da matéria-prima para seus consumidores. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), trata-se de um "contrachoque" do petróleo.

Avassaladora, a transformação no mercado global ainda vem sendo digerida por governos, empresas e investidores, incapazes de prever o patamar real do preço do petróleo. Em 31 de dezembro de 2013, o custo médio do barril do tipo Brent (negociado em Londres) era de US$ 110,80. Na segunda-feira passada, o mesmo produto era oferecido a US$ 71,68, antes de cair abaixo da barreira psicológica de US$ 70 na terça-feira. Trata-se de menos da metade de seu valor de 2008, quando chegou ao pico de US$ 147 por barril.

Disputa. O movimento de queda foi acentuado em 27 de novembro, quando o governo da Arábia Saudita bloqueou na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) a hipótese de intervir no mercado, reduzindo o teto da produção para evitar a degringolada do preço. Para tanto, a Arábia contrariou interesses poderosos, inclusive de parceiros de cartel como Venezuela e Nigéria - a maior reserva do mundo e o maior produtor da África, respectivamente. Segundo o jornal The Wall Street Journal, o governo saudita entende que US$ 60 seria o piso a não ser infringido pela curva de queda nos preços.

O problema para outros países produtores agora fragilizados, como Rússia e Venezuela, é que o discurso saudita mudou nas últimas quatro semanas. Até então o piso a não ser infringido era de US$ 70. Outro fator de instabilidade é que as razões para a mudança de postura dos árabes são desconhecidas. Em Moscou, especula-se sobre uma ação organizada da Arábia e dos EUA para enfraquecer inimigos diretos, como Irã e Rússia.

Para especialistas ouvidos pelo Estado, entretanto, a lógica pode ser outra: atingir a concorrência mundial. Um dos primeiros alvos seria a produção não convencional do produto, como o petróleo de xisto, nos EUA, e de areias betuminosas, no Canadá, mas também os projetos futuros de extração no Casaquistão, em águas profundas no pré-sal no Brasil, na costa ocidental da África ou no Ártico.

A preocupação saudita faz sentido porque a produção de fontes não convencionais de petróleo cresce de forma vertiginosa, em especial na América do Norte. Em 1º de janeiro de 1995 os EUA importavam 7,4 milhões de barris por dia, e produziam 6,56 milhões. Em 2015, produção deve chegar a 9,42 milhões, contra 6,03 milhões de barris importados por dia. Trata-se de um recorde desde o pico de 1970, quando a produção americana convencional começou a declinar.

O efeito prático do derrame de óleo no mercado foi diagnosticado pela AIE em relatório sobre o Panorama da Energia Mundial. A perspectiva é de que entre 2013 e 2020 o volume de barris produzidos por países não membros da Opep suba de 50,5 milhões para 56,1 milhões de barris por dia, ampliando de 58% para 60% sua fatia do mercado e, em consequência, reduzindo a influência econômica e geopolítica do cartel.

"Muitos países têm a percepção de que a melhor forma de enfrentar o aumento da produção a custo elevado é reduzir o preço do barril de petróleo convencional", disse ao Estado Antoine Halff, diretor da Divisão de Indústria do Petróleo e de Mercados da AIE. "Especula-se no mercado que esses cortes visam em particular a produção americana de light oil. Mas não acredito que a Opep teria visado um tipo específico de produção, nem que tenha querido reduzi-la por meio da baixa dos preços."

Thomas Porcher, economista e professor da Escola Superior de Gestão (ESG), de Paris, lembra que a Arábia Saudita, por meio da Opep, interveio no mercado sempre que o preço baixou, como em 2001 e 2006. Em 2008-2009, durante a crise global, o cartel retirou do mercado 3 milhões de barris por dia para ajustar o preço.

Agora, diz, há uma estratégia deliberada para quebrar a concorrência. "A Arábia Saudita decidiu deixar baixar o preço para matar a produção de petróleo de xisto, que tem custo de extração a US$ 70 ou US$ 80 e fica menos rentável", afirma Porcher. "Também é o caso do Canadá e pode ser até do Brasil, já que as empresas reverão investimentos futuros em caso de estabilização dos preços no patamar atual."

O coquetel explosivo do aumento da oferta, alerta a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), se completa com a perda de fôlego da demanda, causada pela desaceleração de grandes emergentes, como China e Índia, pela estagnação econômica da Europa, do Japão e do Brasil, e pela recessão já prevista da Rússia em 2015. Neste ano, a AIE prevê que o consumo diário de petróleo se limitará a 92,4 milhões de barris por dia, o menor ritmo de crescimento em cinco anos.

Vencedores. O resultado da conjuntura de produção em alta e de demanda estagnada pegou o mundo de surpresa. Governos ainda fazem as contas para estimar o tamanho dos prejuízos e ganhos. Entre os "vencedores" com a queda no preço estão a China, que tem a maior fatura de importação de petróleo - cerca de US$ 615 bilhões - e vai pagar menos pelo produto.

Segundo a agência de notícias Xinhua, a economia pode chegar a US$ 30 bilhões até o fim do ano, pelos cálculos do China Center for Energy Economics Research, da Universidade de Xiamen. Outro estudo, realizado pelo Bank of America, indica que o PIB da China pode crescer até 0,15% a cada 10% de redução do preço do petróleo.

Na Europa, a balança comercial de países como a França sofrerá o impacto positivo de 2,9% de superávit, ou € 2 bilhões. Nos postos de combustíveis, consumidores já pagam menos pelo diesel e pela gasolina, enquanto ações de companhias aéreas como a Air France-KLM sobem, graças à redução do gasto com querosene de aviação. Só na segunda metade do ano, a companhia teria economizado cerca de US$ 300 milhões em combustível.

Entre os perdedores estão potências como a Rússia ou países como Venezuela, Irã, Nigéria, Argélia, Angola, Congo, Gabão e Guiné Equatorial. Para cientistas políticos europeus, os casos russo e venezuelano são os mais graves. Já pressionado pelas sanções econômicas do Ocidente, o rublo perdeu 60% de seu valor ante o dólar e 40% ante o euro com a desvalorização do petróleo. Além de receber menos pela produção, planejar a extração se tornou um problema para o Kremlin. Em certas jazidas, o custo de exploração não é viável se o barril não for vendido acima de US$ 85. O cenário deve levar o país à recessão.

Além de governos e estatais, a instabilidade atinge empresas privadas. Sob condição de anonimato, um alto executivo da Divisão de Finanças e Planejamento de uma multinacional europeia do petróleo confidenciou à reportagem que mesmo gigantes do setor estão perdidas em seus cálculos.

"Foi uma surpresa para a maior parte dos agentes de mercado, porque a visão dominante era de que a Arábia Saudita e a Opep continuariam a agir como fizeram nos últimos anos para estabilizar os preços e protegê-los em um nível em torno de US$ 100, ou talvez US$ 80", disse.

"Mesmo as gigantes do setor estão revendo seus projetos de investimentos importantes que se justificavam com preços de petróleo mais elevados. Creio que o objetivo era exatamente esse: atingir projetos futuros como o do pré-sal no Brasil, que exigem tempo longo de decisão e muito investimento."

Em gabinetes públicos ou privados, a grande questão agora é em que patamar a Arábia Saudita e a Opep decidirão intervir. Na visão de Porcher, a queda não será prolongada. "Creio que até junho ou julho de 2015 o preço pode se estabilizar em torno de US$ 80", diz. "As empresas terão integrado a baixa dos investimentos futuros, a produção será reduzida, a tensão aparecerá no mercado e o preço vai voltar a aumentar."

'A produção no Brasil não sofrerá de imediato'

Para a Agência Internacional de Energia (AIE), a queda dos preços não estava fora dos radares. É o que afirmou Antoine Halff, diretor da Divisão de Indústria do Petróleo e de Mercados da instituição, que tem sede em Paris. Ele deu a seguinte entrevista para o Estado:

Qual é o seu diagnóstico sobre as causas da queda do preço do petróleo?

Há três fatores de base: alta do dólar, que levou muitos investidores a fazerem currency hedge (proteção financeira) no petróleo; o aumento da oferta muito rápida, de quase 3 milhões de barris de petróleo anuais no curso dos últimos meses, o que é o fruto do desenvolvimento de novas tecnologias e investimentos sobre a produção não convencional nos Estados Unidos, Canadá e outros países nos últimos anos; e o aumento da produção anual nos países da Opep, que estava limitada por problemas na Líbia e no Iraque. Nos últimos tempos o que vimos foi uma recuperação parcial da produção na Líbia e de um tanto no Iraque.

Muito se especula sobre as razões que levaram a Arábia Saudita a bloquear na Opep uma intervenção no mercado. O sr. vê nisso uma decisão mais política ou econômica?

Seria melhor fazer essa pergunta à Opep, mas creio que há várias formas de compreender a decisão da organização, que é econômica. Seria muito difícil para os países da Opep entrar em acordo sobre um corte da produção, porque seria necessário reparti-lo entre os países-membros, o que exige um sistema de cotas por país que a organização suspendeu em novembro de 2011. Toda decisão de baixar o teto da produção implicaria discutir como distribuir essa tarefa e chegar a um acordo parece ter sido impossível.

Quais são as mais vulneráveis à queda dos preços?

Não posso falar em exemplos. Há dois efeitos da baixa de preços, distantes, mas ligados um ao outro: constituir um desafio para a produção a alto custo, que se torna menos rentável em um ambiente de custo baixo; e atingir o chamado social break-even, a ideia de que certos países produtores têm necessidade de preços altos para financiar seus orçamentos. A baixa do preço coloca em questão esses dois fatores, por isso representa uma ameaça à estabilidade política e social de alguns países.

Logo com efeitos políticos fortes.

Sim, sem dúvida.

Prejudicar a "produção a alto custo" seria um problema para o Brasil, que tem de explorar jazidas no pré-sal?

Sim, para o Brasil é um problema porque a baixa do preço representa um problema para investimentos de exploração de alto custo. Mas é preciso distinguir o impacto sobre investimentos futuro do impacto sobre a produção de curto prazo. Não sabemos como acontecerá nos EUA, por exemplo, porque o atual modelo americano ainda não foi testado. Não temos precedente. Mas há países produtores que terão rendimentos menos importantes.

O sr. vê impactos de mais longo prazo no Brasil, então.

Sim, seria mais nos investimentos de longo prazo, que poderão ser retardados ou que ficarão a risco. Mas sobre as concessões imediatas não creio que haja problemas, porque os investimentos já foram realizados. É o contrário do que se passa nos Estados Unidos. A produção no Brasil nas áreas já concedidas será feita mesmo em um quadro de baixa de preço. Logo os efeitos não serão sentidos antes de cinco a dez anos. Não acreditamos que a produção sofrerá de imediato no Brasil.

Os mais beneficiados serão países que importam o combustível, certo?

Sim. Mas, em termos de consumo, há diferentes configurações de preço. Para os produtores é ruim. Para os consumidores, a situação é um pouco diferente. Em geral, a baixa do preço resulta em aumento do consumo. Mas essa análise vale para economias em crescimento com inflação. Hoje, os países do Ocidente e da OCDE registram crescimento muito baixo, alguns com baixa do poder aquisitivo e com um ambiente de deflação. Esses fatores podem anular os efeitos positivos da baixa de preços.


 

Estadão