'É problema dele, não meu', diz Janot sobre Lula virar ministro

'É problema dele, não meu', diz Janot sobre Lula virar ministro

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, disse nesta quarta-feira (16), em Paris, que a possibilidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva virar ministro no governo Dilma Rousseff não lhe diz respeito.

"Isso é um problema dele, não meu", afirmou. A fala ocorreu antes do anúncio da ida de Lula para a Casa Civil.

Como ministro –a decisão foi tomada nesta manhã–, Lula ganha foro privilegiado e passa a ser investigado apenas no Supremo Tribunal Federal. A Lava Jato apura se empreiteiras -entre elas a OAS- e o pecuarista José Carlos Bumlai favoreceram o petista por meio do apartamento e de um sítio em Atibaia (SP). O ex-­presidente nega as acusações.

Nesta terça (15), também foi divulgada a delação do senador Delcídio do Amaral (ex-PT-MS) no âmbito da Lava Jato, com acusações contra o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, a presidente Dilma Rousseff e seu vice, Michel Temer, Lula e parlamentares como Aécio Neves (PSDB-MG) e Renan Calheiros (PMDB-AL), entre outros. Eles negam irregularidades.

Janot afirmou que o Ministério Público Federal está analisando as denúncias contra políticos feitas pelo senador e que, se houver indícios de ilegalidades, serão abertas investigações, sem privilégios nem tratamento diferenciado.

"Nós temos o material, que o MP está examinando, e será como deve ser", afirmou Janot. "Se houver indício, a gente vai abrir investigação, independente de quem seja. Isso é uma República. Ninguém tem privilégio e ninguém tem tratamento diferenciado", disse.

O procurador-geral da República está em Paris para um fórum internacional promovido pela OCDE contra a corrupção.

Janot afirmou ainda que os participantes do encontro estão muito curiosos sobre o Brasil e são muito solidários com as investigações da Lava Jato.

"O do Brasil, é um caso fora da curva, com certeza", diz. "Aqui se trata de um viés diferente da corrupção, que é a corrupção transnacional, mas essa investigação nossa acaba se refletindo também neste tema", disse.

Segundo Janot, é difícil estimar o numero de empresas brasileiras que são acusadas de suborno mo exterior e estimar se aumentou a quantidade de companhias do país investigadas no interior. "Não e possível dizer que aumentou, porque partimos do zero."

REPATRIAÇÃO DE VALORES

Janot ainda participa, nesta sexta, (18), de reunião na Suíça para discutir repatriação de valores advindos de corrupção no âmbito da Operação Lava Jato. Uma equipe de procuradores brasileiros também estará presente.

"Mas não vamos tratar só de repatriação. Haverá outros assuntos importantes. Estamos trabalhando com a Europa para montar a primeira equipe conjunta de investigação. As negociações entre o MP suíço e o brasileiro já estão bem avançadas, provavelmente a Itália também virá", disse.

Segundo ele, a investigação transnacional terá possíveis reflexos nas investigações de empresas brasileiras no exterior no âmbito da Lava Jato, mas não restritos a essa operação.

"Se temos essa equipe conjunta, se circulamos diretamente a informação entre um MP e outro, conseguimos maior velocidade nas investigações", disse. "O primeiro grupo que criamos foi com a Argentina, para investigar a violação de direitos humanos. Também criaremos uma parceria com a Itália."

O brasileiro integra um grupo de trabalho que discute nesta quarta, a partir das 14h, a cooperação internacional na prevenção da corrupção transnacional, do qual participam também Michael Lauber, procurador-geral da Suíça, Gerd Billen, secretário de Estado do Ministério Federal da Justiça e Proteção dos Consumidores da Alemanha, Agus Rahardjo, comissário-geral do Comitê pela Erradicação da Corrupção da Indonésia, e Anca Jurma, procurador e chefe da Direção Nacional Anticorrupção da Romênia.

 

 

 

 

Folha de São Paulo