Doleiro diz que ex-deputado do PP ‘dividia operações’ com Aécio em Furnas

Doleiro diz que ex-deputado do PP ‘dividia operações’ com Aécio em Furnas

O procurador-geral da Repúlica, Rodrigo Janot, vai estudar o pedido de parlamentares do PT para investigar o senador Aécio Neves (PSDB) no caso Furnas. A base do requerimento subscrito por dois deputados federais e um estadual, todos do PT de Minas, é o depoimento gravado em vídeo do doleiro Alberto Youssef, personagem central da Operação Lava Jato – esquema de corrupção na Petrobrás.

Nesta sexta-feira, 20, a Procuradoria informou que o pedido anunciado pelos parlamentares ainda não havia sido protocolado.

Em delação premiada, o doleiro afirmou que o ex-deputado José Janene (PP/PR) – condenado no processo do Mensalão e mentor do esquema de propinas na Petrobrás – lhe contou que “dividia diretoria de Furnas com o então deputado na época Aécio Neves”.

“O partido (PP) tinha a diretoria, mas quem operava a diretoria era o Janene em comum acordo com o então deputado Aécio Neves.” “Tinha algumas operações que ele (Janene) dividia com o então deputado Aécio Neves (PSDB.”

O tucano foi deputado federal por seu Estado entre 1987 e 2003, quatro mandatos consecutivos. Para os deputados do PT que representaram por investigação na Procuradoria-Geral da República, as informações do doleiro “reforçam indícios de participação de Aécio no desvio de recursos na estatal”.

Furnas é uma empresa de economia mista – subsidiária da Eletrobrás e vinculada ao Ministério de Minas e Energia – que atua na geração e transmissão de energia elétrica. Os deputados petistas defendem a necessidade de o Ministério Público Federal “aprofundar as investigações”.

O relato do doleiro foi tomado em fevereiro pela força tarefa do Ministério Público Federal que investiga o suposto envolvimento de políticos com o esquema Petrobrás. O depoimento, termo 21, foi gravado em vídeo. Indagado pelos procuradores se teve contato com Aécio, ele respondeu. “Não, senhor.”

As informações do doleiro sobre o tucano não foram suficientes para que a Procuradoria-Geral da República requisitasse inquérito para investigar Aécio no âmbito do esquema Petrobrás. No início de março, em petição ao Supremo Tribunal Federal (STF), o procurador-geral, Rodrigo Janot, pediu arquivamento do procedimento relativo ao senador do PSDB.

“Há se ver que os fatos referidos são totalmente dissociados da investigação central em voga, relacionada à apuração dos fatos que ensejaram notadamente desvios de recursos da Petrobrás. A referência que se fez ao senador Aécio Neves diz com supostos fatos no âmbito da administração de Furnas. Assim, do que se tem conhecimento, são fatos completamente diversos e dissociados entre si”, assinalou Janot no despacho ao STF, no início de março.

Na ocasião, Janot fez uma ressalva. “De qualquer modo, nunca é demais se frisar que não se está fazendo nenhum juízo insuperável acerca da procedência ou não de eventual participação do parlamentar referido no suposto fato relacionado a Furnas. O que se impõe assentar é que, diante do que há de concreto nos autos até o presente, não há sustentação mínima para requerimento de formal investigação.”

Na delação premiada, Alberto Youssef disse que “na época, não atuava como operador da Petrobrás, tinha casa de câmbio e fazia operações para o deputado José Janene”. Ele disse que Janene tinha “alguns serviços com algumas empresas que prestavam para Furnas”.

Segundo o doleiro, uma das empresas era a Bauruense. “Alguns funcionários do seu José retiravam valores, entregavam ao seu José, seu José entregava a mim, para que eu pudesse levar para Brasília ou fazer algum pagamento”, disse o doleiro.

O doleiro disse que o ex-deputado, que morreu em 2010, mantinha uma conta corrente com ele. “A maioria da arrecadação que ele fazia, ele mandava para mim. A Bauruese tinha contrato com Furnas de diversas prestações de serviços. Se não me engano, na época teve um inquérito que estava correndo em Brasília.”

Youssef disse que sabia qual diretoria Janene controlava em Furnas. “Mas ouvi dizer que, na verdade, ele dividia essa diretoria com o então deputado na época Aécio Neves. O partido (PP) tinha a diretoria, mas quem operava a diretoria o Janene em comum acordo com o então deputado Aécio Neves.”

Youssef disse não falou sobre esse caso antes, porque “Janene era compadre dele e ele não quis abordar”. Como ninguém perguntou, ele também não falou. Indagado sobre quem lhe disse sobre Aécio, ele respondeu. “O próprio deputado José Janene. Mais de uma vez.”

Segundo Youssef, esse assunto surgiu “em conversas políticas que eles estavam tendo.” ”Eu estava junto, acabava escutando. Por exemplo, ele (Janene) conversando com outro colega de partido, então, naturalmente, saía essa questão de que na verdade o Partido Progressista não tinha a diretoria só e sim dividiria com o PSDB, a cargo do deputado Aécio Neves.”

Não soube informar detalhes sobre repartição de valores. “A divisão eu não sei, mas sei mais ou menos pelos valores que a Bauruense repassava mensalmente. Era coisa de mais ou menos, na época, US$ 100 mil, US$ 120 mil. Tem que lembrar que na época o dólar era 0,87, 0,90, 0,91 do real.”

Youssef disse que os repasses ocorreram entre 1996 a 2000. A força tarefa perguntou a ele. “Durante todo esse período teve repasse de US$ 100 mil mensal?” “Mais ou menos isso”, disse o doleiro. Segundo ele, quem entregava o valor era “o próprio seu José”.

Os procuradores perguntaram ao doleiro se valores para o PSDB era Janene que distribuía. “Nem chegava para o Janene, eram duas frentes diferentes.”

Quem era o operador do PSDB na época?, perguntaram ao doleiro na audiência de fevereiro. ”A gente sabe por ouvi dizer. Ouvi dizer, não tenho certeza, não posso afirmar, mas diziam que era a irmã dele, a irmã do Aécio. Uma das irmãs, não sei se ele tem duas ou uma. Ouvi do seu José, na época.”

COM A PALAVRA, O SENADOR AÉCIO NEVES.

Como já foi afirmado pelo advogado de Alberto Youssef e, conforme concluiu a PGR e o STF, as referências feitas ao nome do Senador Aécio Neves são improcedentes e carecem de quaisquer elementos que possam minimamente confirmá-las. Não se tratam de informações prestadas, mas sim de ilações inverídicas feitas por terceiros já falecidos. O uso do nome do então líder do PSDB por terceiros poderia, inclusive, estar atendendo a algum tipo de interesse de quem o fez. Em seu depoimento, conforme a petição da PGR, Youssef afirma que “Nunca teve contato com Aécio Neves” (página 18) e que “questionado se fez alguma operação para o PSDB, o declarante disse que não” (página 20).

 
 
 
 

Estadão