Diretor que sucedeu Costa diz à CPI desconhecer corrupção na Petrobras

Diretor que sucedeu Costa diz à CPI desconhecer corrupção na Petrobras

O diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras, José Carlos Cosenza, que substituiu Paulo Roberto Costa no cargo, disse nesta quarta-feira (29) à CPI mista que investiga a petroleira que “nunca” ouviu falar “absolutamente nada” sobre suposto esquema de pagamento de propina e lavagem de dinheiro dentro da empresa.

“Desconheço. Nunca ouvi falar absolutamente nada sobre isso”, afirmou o diretor quando questionado pelo relator da CPI mista, deputado Marco Maia (PT-RS).

Em depoimento à Justiça Federal do Paraná no início de outubro, Paulo Roberto Costa, preso em regime domiciliar no Rio, afirmou que havia um esquema de pagamento de propina a partidos com dinheiro de contratos da estatal com fornecedores. Segundo Costa, as diretorias da Petrobras comandadas por PT, PMDB e PP recolhiam propinas de 3% do valor de todos os contratos. As legendas negam. 

O atual diretor destacou que todas as denúncias de irregularidades dentro da petroleira estão sendo investigadas interna e externamente. “O Ministério Público e a Polícia Federal estão investigando se isso é verdade. Meu trabalho é conduzir o suprimento (de gás e petróleo) do país como um todo. Detalhes de contratação não são da minha área”, afirmou.

Marco Maia, então, retrucou: “mas o senhor está substituindo o Paulo Roberto Costa”. “Sim, mas dentro do [diretoria de] Abastecimento eu nunca ouvi falar de cartel”, respondeu.

“Nos meus 38 anos de empresa, eu não tenho essa informação de que antes ou depois dele [Paulo Roberto Costa] havia esse esquema de propina”, completou o diretor. O relator, então, lembrou que, durante depoimento na delação premiada, Costa teria afirmado que o suposto esquema era “tratado abertamente” dentro da diretoria. “Se foi, eu nunca vi”, respondeu Cosenza.

Contatos com Costa
Cosenza também disse que não conhece o doleiro Alberto Youssef, preso pela Polícia Federal suspeito de comandar esquema de lavagem de dinheiro que movimentou mais de R$ 10 bilhões. O diretor, no entanto, admitiu ter tido contato com Paulo Roberto Costa depois de sua saída da empresa, em 2012.

No depoimento desta quarta, inicialmente, Consenza negou ter mantido contato com Costa após ele ter deixado a empresa. Ele chegou a afirmar que seu contato com o ex-diretor limitou-se ao momento em que foi convidado para assumir a gerência de Refino. “Somente neste momento”, afirmou.

 

Cerca de 20 minutos depois, no entanto, em reposta ao deputado Rubens Bueno (PPS-PR), ele admitiu que, depois que Costa deixou a diretoria, eles tiveram contato em cinco ocasiões, duas vezes pessoalmente e três por telefone.

Em um dos contatos com Costa, Cosenza disse ter feito consultas “técnicas” sobre a Diretoria de Abastecimento. ”Fiz uma consulta sobre mecanismos dentro do Abastecimento, porque eu nunca tinha exercido um cargo dessa magnitude e tinha dúvidas sobre o modus operandis. Queria sanar dúvidas das mais diversas, um assunto estritamente técnico”, respondeu.

 

Em outra oportunidade, Cosenza afirmou ter respondido a uma carta enviada pelo ex-diretor, na qual ele fazia uma proposta relacionada a minirefinarias. “Ele mandou uma carta e essa carta foi respondida. Foi uma mera correspondência seguida de uma resposta sobre a inviabilidade”, afirmou, sem dar detalhes da proposta.

Discussão
O líder do PSDB, na Câmara, deputado Antônio Imbassahy (BA), questionou quais medidas Cosenza teria adotado a partir de 2012 para sanar eventual desvio de verba na diretoria. "Com tantas irregularidades, o senhor passa dois anos e nada faz? Nada foi feito? Nenhuma punição?”, provocou o parlamentar. O diretor respondeu que a auditora interna está “nos finalmentes”.

“Fazer uma ação nesse momento sem ter conclusão por parte dos órgãos de investigação nos parece temerário. Vamos agir quando tivermos os resultados tanto das auditorias internas quanto externas”, afirmou. “A auditoria (interna) está nos finalmentes”, completou.

Para Imbassahy, “não resta dúvida que essas irregularidades na Petrobras prosseguiram mesmo depois da saída do Paulo Roberto Costa”.

Questionado pelo deputado Enio Bacci (PDT-RS) se Costa era uma pessoa “confiável”, Cosenza disse nunca ter visto nada que o “desabonasse”. “Mas alguma coisa aconteceu que o levou a ter essa situação de delação premiada”, admitiu o diretor. “O Brasil sabe que alguma coisa aconteceu”, respondeu Bacci.

O primeiro parlamentar governista a falar na sessão foi o petista Afonso Florence (BA), que parabenizou o diretor por não ter “escorregado em nenhuma casca de banana” durante o depoimento. A oposição, segundo ele, tenta levar a investigação da Petrobras para o âmbito da disputa eleitoral. “O que estamos vendo aqui é uma tentativa de terceiro turno. A presidente Dilma foi eleita, nós temos que desacelerar”, disse Florence.

O objetivo dos oposicionistas, segundo o petista, é atingir a presidente da empresa, Graça Foster, e Dilma Rousseff. “Quando, na verdade, esse governo faz uma boa gestão na Petrobras”, afirmou Florence.

Esta é a segunda tentativa que o colegiado faz para ouvir o diretor. Na semana passada, Cosenza não compareceu e enviou um atestado médico para justificar a ausência. Segundo o documento, o diretor teria apresentado hipertensão e teria recebido “medicação de urgência”, o que impossibilitou sua ida ao Congresso.


 

G1