Deputados acusam Vital de montar farsa na CPI da Petrobras

Deputados acusam Vital de montar farsa na CPI da Petrobras

Um bate-boca marcou o fim do depoimento de Edmar Diniz de Figueiredo, gerente de contratos da Petrobras, à comissão parlamentar mista de inquérito que investiga as denúncias de corrupção na estatal. A oitiva seguia sem muitos avanços, na palavra do deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), até que o senador Wellington Dias (PT-PI) alegou restrições regimentais para a continuidade dos trabalhos, uma vez que a ordem do dia no plenário do Senado havia começado. Depois de uma rápida discussão, o presidente Vital do Rêgo (PMDB-PB), que inicialmente acatou o argumento de Onyx, encerrou os trabalhos, sob gritos de protesto de membros da oposição.

Depois de encerrar as atividades da CPI, Vital deixou imediatamente o auditório de reuniões da comissão. Acompanhado pela imprensa no “túnel do tempo”, corredor que faz ligação das comissões com o plenário, o senador falava com repórteres enquanto se dirigia para participar da ordem do dia, reunindo dezenas de profissionais da notícia ao seu redor. Foi quando surgiram aos gritos, em seu encalço, o líder do PPS na Câmara, Rubens Bueno (PR), e os colegas Onyx e Carlos Sampaio (PSDB-SP), enfurecidos com a decisão de Vital – eles reclamaram do fato de a sessão ter sido encerrada com diversos requerimentos para depoimento na pauta.
 
Diante do avanço dos três deputados em sua direção, Vital, que havia parado para falar rapidamente às câmeras, reiniciou sua caminhada – deixando a atenção de repórteres e cinegrafistas para os oposicionistas. Os deputados acusaram os membros aliados na CPI de, sob ordem do governo, “enrolar” na condução do depoimento até o início da ordem do dia, para então alegar a imposição regimental.
 
“Na forma do artigo 107 (do regimento), parágrafo único, eu não posso coincidir reunião de comissão temporária especial ou de inquérito com a ordem do dia. A ordem do dia do Senado estava sendo iniciada, e tínhamos a obrigação de encerrar… (o depoimento)”, explicava Vital do Rêgo, interrompido pela chegada dos deputados, aos gritos.
 
“O senador Vital está assumindo a desmoralização do Congresso Nacional! Isso é uma desmoralização! Vocês têm que assumir essa vergonha! Esse acordo que foi anunciado é mentiroso!”, bradava Rubens Bueno, ao lado de Onyz e Sampaio. Ele se referiu ao acordo de procedimentos, que a oposição nega, que acabou por evitar a aprovação de uma série de convites ou convocações para que figuras do PT e do PSDB prestassem esclarecimentos sobre o esquema de corrupção. Entre os requerimentos estavam os que incluíam o ex-presidente Lula, a presidenta Dilma Rousseff, os senadores Aécio Neves (PSDB-MG), Alvaro Dias (PSDB-PR) e Gleisi Hoffmann (PT-PR) e o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, entre outros, no rol de depoentes.
 
“Esta farsa está sendo montada e sendo presidida pelo senador! Isso é o que tem que ser dito para o povo brasileiro, (Vital) não pode fugir!, tem que responder isso! Esta farsa montada pelo senador Vital do Rêgo e pela base do governo do PT, com a participação do relator (Marco Maia, PT-RS), que fugiu da audiência! Essa é a grande verdade!”, vociferou o líder do PPS. O deputado petista informou à secretaria de comissões que estava em repouso devido a um acidente de moto.
 
“Estelionato eleitoral”
Ofegantemente, Rubens Bueno explicou que a “farsa” consistiu na convocação da oitiva, depois de a comissão ter atingido o quórum suficiente para funcionar, e depois na “embromação” até o início das votações em plenário. “Ao chamar a oitiva, o relator indicado ad hoc (Afonso Florence, PT-BA), do PT, ficou o tempo todo embromando, enrolando, até chegar a ordem do dia. Chega o líder do PT, senador Humberto Costa (PE) no plenário e diz que tem chamada nominal! Esta farsa, esta grande mentira anunciada como acordo nacional! Esta mentira do PT, um estelionato eleitoral e, agora, do Congresso Nacional”, vociferou o deputado.
 
O acordo a que os oposicionistas fazem menção consistiria, em uma primeira fase, na chamada ex-dirigentes para depoimentos – os primeiros seriam o ex-diretor da Área de Serviços da Petrobras Renato Duque e o presidente licenciado da Transpetro, principal subsidiária Sérgio Machado. Depois seria vez de políticos como a presidenta Dilma e o senador Aécio Neves, entre vários outros. Para Carlos Sampaio, que mais cedo acusou o PT de mentir sobre o acordo da semana passada, a conduta de Vital visou justamente impedir a aprovação desse tipo de requerimento.
 
“O grande temor é a convocação das pessoas que estão diretamente envolvidas (com o esquema de corrupção), e grande parte delas da base do governo. O que a gente percebe, claramente, é que não só não houve acordo, mas como eles manipularam – e, portanto, colocaram na vala comum – todos os partidos políticos. Os partidos de oposição denunciaram o esquema! O PT, o PP e o PMDB se beneficiaram desse mesmo esquema! É inadmissível a postura, hoje, do presidente Vital do Rêgo. Ele fez o jogo do governo, sabe-se lá por quais pretensões”, protestou Sampaio, também muito exaltado.
 
Convocações ameaçadas
Com a sessão encerrada, ficam sob risco de arquivamento diversos convites ou convocações para depoimentos. Instalada em maio, a CPI seria inicialmente encerrada no próximo dia 23 de novembro, e seus membros dependem da maioria governista para aprovar a prorrogação das atividades para 22 de dezembro. Na pauta desta terça (11) estava prevista a aprovação das convocações de Sérgio Machado e Renato Duque.
 
Os requerimentos foram movidos depois da divulgação de trechos dos depoimentos do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef, tido como operador financeiro do esquema de desvio de recursos. Entre as acusações que ambos fizeram a políticos de PT e PSDB, entre outros, está a de que a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), ex-ministra da Casa Civil, recebeu R$ 1 milhão do esquema para sua campanha ao Senado, em 2010, a pedido de seu marido, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo (PT). Gleisi, como os demais citados nas delações, nega a denúncia.
 
Por outro lado, tucanos conseguiram evitar a convocação do empresário Leonardo Meirelles, apontado nas investigações como laranja do doleiro Alberto Youssef. Segundo Meirelles, em depoimento à Justiça Federal, parlamentares do PSDB também receberam dinheiro desviado da Petrobras. Em outra delação, Paulo Roberto Costa disse que o ex-presidente nacional do PSDB e ex-senador Sérgio Guerra (PE), morto em março, cobrou-lhe R$ 10 milhões para esvaziar uma CPI criada em 2009 também para investigar a Petrobras. Segundo o delator, o dinheiro seria usado na campanha tucana em 2010, quando Aécio foi eleito para o Senado – motivo que poderia ser alegado por petistas para incluí-lo entre os eventuais depoentes.
 
Mas, para Rubens Bueno, o próprio senador Aécio já se dispôs a comparecer a colegiado. Lorenzoni foi além e disse que a oposição já reúne assinaturas para a instalação de nova CPI da Petrobras para a próxima legislatura, já a partir de 1º de fevereiro, e que vão tentar aprovar os requerimentos pendentes na próxima terça-feira (18). Para o deputado gaúcho, os nomes que devem prestar depoimento são os que têm envolvimento direto no esquema.
 
“Não tem essa história de Lula, Dilma ou Aécio. Nós precisamos trazer aqueles que diretamente estavam sendo investigados. O governo não quer que investiguemos, porque sabe que (a denúncia) vai chegar ao Planalto. Quer jogar toda a conta do processo da Petrobras aqui para o Congresso. Essa é uma estratégia que o governo usa desde o mensalão”, declarou o deputado, acrescentando que as CPIs nunca haviam sido interrompidas por causa de votações na Câmara ou no Senado. “A tradição é que os membros da comissão se desloquem e a oitiva continue.
 
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