Depoimento de cúmplice indica que Bernardo pode ter sido enterrado vivo

Depoimento de cúmplice indica que Bernardo pode ter sido enterrado vivo

O depoimento da assistente social Edelvânia Wirganovicz, acusada de participação na morte de Bernardo Uglione Boldrini, à Polícia indica a possibilidade de que o garoto tenha sido enterrado ainda com vida. Trechos do depoimento foram divulgados na edição desta segunda-feira do jornal "Zero Hora". Além de Edelvânia, o pai de Bernardo, Leandro Boldrini, e a madrasta da vítima, Gracieli Ugulini, também estão presos, acusados pelo crime.

No depoimento, a assistente social diz textualmente que nem ela e nem Gracieli verificaram se Bernardo estava vivo após a aplicação da dose letal de midazolan, anestésico usado em procedimentos cirúrgicos leves, como endoscopias, que pode levar à morte se for aplicado em excesso. O pai da vítima é médico e tem uma clínica especializada em endoscopias no município de Três Passos, norte do Rio Grande do Sul.

 

“Que a depoente e Kelly (apelido de Gacieli) colocaram o menino no buraco, sendo que Kelly jogou a soda (cáustica) sobre o corpo e a depoente acha que ele já estava morto. Que a depoente não viu se Kelly olhou se o menino tinha pulsação”, disse a assistente social no depoimento. Ela também afirmou que apenas ela e a madrasta sabiam “sobre o fato”.

Edelvânia depôs no dia 14 de abril, depois que a Polícia rastreou as ferramentas usadas para abrir a cova destinada a Bernardo. A pá, a cavadeira e restos de soda cáustica, usada para “consumir” o corpo e não deixar “cheiro”, foram encontradas na casa da mãe da assistente social. Horas depois do depoimento, o corpo do garoto foi encontrado e o trio acusado pela morte acabou preso.

Bernardo, que morava com o pai, a madrasta, que é enfermeira, e uma meia-irmã de um ano e três meses, foi morto no dia 4 de abril na cidade de Frederico Westphalen, a 80 quilômetros de Três Passos, supostamente por uma injeção letal. A necropsia realizada na cidade em que o corpo foi encontrado não apontou a causa da morte.

O depoimento confirmou a hipótese já apresentada pela Polícia de que a amiga da madrasta havia sido contratada para ajudar na morte do garoto. Segundo Edelvânia, Gracieli adiantou R$ 6 mil para que a assistente social quitasse a dívida de um imóvel no valor de R$ 96 mil. De acordo com o depoimento, o acerto era pagar R$ 20 mil. Mas a madrasta, antes do crime, prometeu quitar a dívida imobiliária de Edelvânia.

“Que Kelly lhe ofereceu muito dinheiro e a depoente foi fraca, mas era muito dinheiro e não teria sangue e nem faca, era só abrir um buraco e ajudar a colocar dentro o menino”, diz outro trecho do depoimento. O relato diz que Gracieli aplicou o anestésico “na veia do braço esquerdo” e que Bernardo “foi apagando”.

O advogado de Leandro Boldrini, Jader Marques, não quis comentar nesta segunda-feira as declarações de Edelvânia dizendo que não teve acesso ao inquérito policial. Marques, que defende também o sócio da boate Kiss Elissandro Spohr, disse que irá à Justiça para garantir o direito de obter acesso às investigações policiais.

No domingo à noite, mais de mil pessoas voltaram a protestar contra a morte de Bernardo pelas ruas de Três Passos. A multidão saiu em caminhada da igreja Matriz e foi à casa do médico. A Brigada Militar acompanhou o protesto, que transcorreu sem incidentes.

Acompanhados de perto pela polícia durante todo o trajeto, as pessoas levaram velas e entoaram cânticos religiosos em frente à residência, no centro da cidade, que está desde a semana passada tomada por cartazes com homenagens a Bernardo e ofensas ao pai, à madrasta e à assistente social.

Na noite em que o corpo de Bernardo foi encontrado, uma multidão tentou incendiar a casa do médico mas foi impedida pela delegada Caroline Bamberg Marchado, que investiga o caso. A delegada conseguiu convencer a população de que a Polícia agiu corretamente ao prender Leandro e Graciele apenas depois de obter provas concretas da participação dos dois no crime e de que a preservação do local era importante para incriminar os suspeitos.

Antes da caminhada, foi rezada uma missa em memória de Bernardo – que era coroinha na igreja, onde havia se batizado em 2010. Na sua homilia, o padre Rudinei da Rosa disse que toda a cidade sabia o que havia acontecido e, sem se referir a nenhum dos suspeitos do crime, completou que “monstros existem, mas no final sempre são vencidos”.

A missa teve a presença de 1,2 mil pessoas, segundo a paróquia. Centenas de pessoas tiveram de acompanhar a homenagem do lado de fora da igreja, que ficou lotada. A avó de Bernardo, Jussara Uglione, não compareceu. Na madrugada desta segunda-feira, foi internada no Hospital de caridade de Santa Maria com tontura e dores no peito.

Na cerimônia, amigos vestiam camisetas com o rosto de Bernardo estampado – muitas delas eram crianças. No final da missa, uma mensagem dirigida ao garoto foi lida coletivamente: “temos presente em nossa memória teu sorriso e os sonhos que tinhas para o futuro. Sempre serás uma pessoa especial, honraremos tua memória buscando justiça. Estarás para sempre em nossos corações”.

No sábado, Boldrini foi destituído do cargo de diretor-técnico do Hospital de Caridade de Três Passos. A direção do hospital informou que ele também será demitido da função de cirurgião plantonista. A decisão foi tomada em conjunto com o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers).