Crise do petróleo deve impedir geração de 20 mi de postos de trabalho até 2019

Crise do petróleo deve impedir geração de 20 mi de postos de trabalho até 2019

O Brasil foi pego de surpresa pela conjuntura internacional de queda nos preços das commodities que assola as nações produtoras de petróleo e se soma a problemas internos do país. Carro chefe do crescimento nacional até meados de 2014, o setor assiste aos níveis de investimento de sua principal empresa, a Petrobras, despencarem. A conjuntura contribui para que a crise econômica brasileira se agrave. Entre 2015 e 2019, ela pode fazer com que 20 milhões de postos de trabalho deixem de ser gerados, incorrendo em uma redução de R$ 64 bilhões no crescimento da renda bruta nacional.

Os dados são do Grupo de Economia da Energia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (GEE-UFRJ), que realizou um estudo sobre os impactos econômicos da crise no setor de petróleo a pedido do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP). Para realizar suas projeções, os economistas aplicaram o valor de investimento planejado da Petrobras entre 2015 e 2019 a uma matriz insumo-produto, dada a representatividade da estatal no setor. Sozinha, ela responde por 70% dos investimentos totais do país na indústria de petróleo. Em meio a desdobramentos da Operação Lava Jato, corte de sua nota de crédito pelas agências de classificação de risco e um ambiente macroeconômico desafiador, a companhia cortou US$ 76 bilhões de seus investimentos para o período citado.

A redução tem impactos significativos sobre a geração de renda e emprego do Brasil”, afirma Marcelo Colomer, um dos responsáveis pelo estudo do GEE-UFRJ. De acordo com ele, os investimentos no setor, com grande destaque para o segmento de exploração e produção (E&P) deram um salto significativo entre 2006 e 2013, chegando a responder por mais de 10% da formação bruta de capital do país. A partir do ano passado, entretanto, o setor acompanha a reversão desses números impactarem a economia brasileira de maneira dramática.

Até 2019, os economistas esperam que, anualmente, o desinvestimento provoque uma queda no crescimento de 4 milhões de postos de trabalho. “E isso não só no setor de petróleo, mas em todo o país. São impactos sobre o emprego direto, indireto e induzido por investimentos na cadeia de petróleo”, ressalta Colomer. Apenas entre janeiro de 2014 e agosto de 2015, o segmento de E&P registrou uma queda de 7% nos empregos formais, o que se traduz em um corte de 4 mil vagas.

Rodrigo Leandro de Moura, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), lembra que mais de 95% dos trabalhadores do setor petrolífero são formais. “Neste setor não tem como um profissional começar a trabalhar por conta própria caso seja demitido. Em outros setores da economia sim, o que faz com que a cadeia fique, de certa forma, equilibrada”, explica. Nos seus cálculos, a média de desemprego em 2015 pode chegar a 8,6%. Em 2016, ele espera que o cenário se agrave e o número suba para 11,1%.

Para suas projeções, a equipe do Ibre/FGV utilizou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os economistas do GEE-UFRJ, por sua vez, fizeram uso do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego. A diferença entre as duas metodologias é que o Caged registra apenas trabalhadores formais, com carteira assinada, enquanto a Pnad Contínua também inclui pessoas no mercado informal de trabalho.

Queda na arrecadação de royalties prejudica finanças de municípios do sudeste

Ao apresentar os resultados de suas projeções durante workshop no IBP, Colomer ainda lembrou a importância da indústria do petróleo na arrecadação de impostos, principalmente no Rio de Janeiro e no Espírito Santo. “Em alguns municípios, qualquer redução dessa arrecadação fiscal se traduz em queda de investimentos e alteração de sua dinâmica econômica”, afirmou.

O preço dos royalties começou a cair a partir de agosto de 2014. A retração está diretamente associada aos preços do barril, uma vez que a produção se manteve relativamente estável neste período. Segundo Colomer, a arrecadação brasileira recuou 25% no primeiro semestre de 2015, na comparação com o mesmo período do ano anterior.

 

 

Jornal do Brasil