Cientistas encontram primeiro coração fossilizado; e ele é brasileiro

Cientistas encontram primeiro coração fossilizado; e ele é brasileiro

Fósseis são vestígios de animais que viveram na Terra há muito tempo. O mais comum é encontrar ossadas e pegadas, que não são decompostas por bactérias. Descobrir um órgão completo de animal fossilizado pode trazer contribuições fundamentais para pesquisas como a do biólogo José Xavier-Neto, que estuda como o coração evoluiu ao longo do tempo.

O primeiro coração fóssil foi encontrado em rochas da bacia do Araripe, sítio geológico localizado no Ceará. A descoberta já teve impactos em áreas da biologia e da medicina, para o entendimento da evolução na anatomia do coração e perspectivas para a cura de doenças cardíacas em humanos. 

Completamente preservado [veja como no fim da matéria], o coração pré-histórico é do peixe Rhacolepis buccalis, que existiu entre 113 e 119 milhões de anos atrás. Essa espécie de peixe, que media cerca de 15 centímetros, foi extinta há muito tempo. Após dez anos de investigações, a descoberta foi publicada na revista científica britânica eLife deste mês.

Uma equipe que envolveu 12 instituições brasileiras e estrangeiras, coordenada pelo Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), em Campinas (SP), reproduziu o coração em tamanho real e em imagens em três dimensões, a partir de tomografias feitas em 63 fósseis pelo Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e por um laboratório de luz síncroton, na França.

Os corações descobertos possuem cinco válvulas, em vez de apenas uma, como a dos peixes atuais. "Isso explica um mistério de 100 anos, que é o das válvulas da saída do coração", afirma Xavier-Neto. Já era conhecido pela ciência que corações de animais primitivos possuíam dezenas de válvulas. O órgão fossilizado apresenta uma morfologia intermediária entre peixes primitivos e atuais.

A descoberta mostra que a redução do número de válvulas foi um processo gradual, e comprova que a evolução não se processa só em aumento de complexidade, mas também em simplificação"

O grupo de Xavier-Neto combina pesquisas sobre evolução com investigações em biologia do desenvolvimento para tentar desenvolver novos tratamentos cardíacos.

Essa abordagem visa entender como as características adquiridas no processo evolutivo são materializadas durante a formação dos embriões. No futuro, a compreensão desses fenômenos poderá possibilitar intervenções cardíacas complexas, como a restauração de válvulas do coração durante a gestação e o desenvolvimento de estruturas cardíacas a partir de células tronco.

 

 

 

 

 

 

Uol