Cachoeira e dono da Delta viram réus por desvio de R$ 370 milhões

Cachoeira e dono da Delta viram réus por desvio de R$ 370 milhões

A Justiça Federal do Rio aceitou a denúncia contra o bicheiro Carlos Cachoeira, o ex-presidente da Delta Fernando Cavendish, o empresário Adir Assad e outras 20 pessoas. Segundo a denúncia do Ministério Público Federal, responsável pela Operação Saqueador junto com a Polícia Federal, eles são acusados desviar R$ 370 milhões de cofres públicos.

Eles são investigados pela operação Saqueador, deflagrada nesta quinta-feira (30). Quatro acusados foram presos. Há um mandado de prisão em aberto contra Cavendish, que está no exterior e é considerado foragido.

Segundo a assessoria de imprensa de Cavendish, ele está voltando para o país. Uma nota será divulgada ainda nesta sexta-feira.

 

 

Entenda a Operação Saqueador
Agentes do MPF e da PF do Rio foram às ruas em três estados para operação que foi batizada de Saqueador, que tinha o objetivo de combater a lavagem de dinheiro e o desvio de verbas em obras públicas.

A Polícia Federal chegou de madrugada aos endereços em três capitais. Um dos alvos, o empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Construtora Delta, não estava em casa, no Rio de Janeiro. Ele mora de frente para o mar, na Avenida Delfim Moreira, no Leblon, um dos endereços mais caros do país.

Cavendish está fora do Brasil desde 22 de junho. Os agentes apreenderam um cofre no apartamento dele e documentos na sede da Delta, no Centro da cidade.

Em Goiânia, os policiais prenderam o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o ex-diretor da Construtora Delta para a região Centro-Oeste, Cláudio Dias Abreu.

Em São Paulo, a operação buscava os chamados operadores financeiros do esquema. Marcelo José Abbud não foi encontrado de manhã, mas se entregou no fim da tarde, como mostram imagens exclusivas obtidas pelo Jornal Nacional.

Adir Assad estava em casa, até porque cumpre prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica, depois que foi condenado na Operação Lava Jato.

Carlinhos Cachoeira e os outros presos foram transferidos para a sede da PF no Rio de Janeiro.

O advogado de Cachoeira, Marcel Verssiani, disse que tentaria habeas corpus imediatamente para o cliente. “Nós estamos ainda tomando pé de toda situação, mas diante da decisão que nós verificamos não há nenhum fundamento concreto a viabilizar a manutenção dessa prisão, então estamos impetrando habeas corpus ainda hoje em favor de Carlos Augusto [Cachoeira]”, disse o defensor.

Foi o Ministério Público Federal do Rio que investigou o esquema de lavagem de dinheiro e denunciou 23 pessoas. Os procuradores descobriram que entre 2007 e 2012, a Delta faturou quase R$ 11 bilhões, só com verbas públicas, o que representa 96,3% de tudo que ganhou nesse período. Desse total, o Ministério Público conseguiu comprovar que pelo menos R$ 370 milhões foram desviados.

Segundo a denúncia, o esquema da organização criminosa funcionou com a Delta repassando os valores para 18 empresas de fachada, fazendo contratos fictícios. Depois, tudo era sacado em dinheiro vivo para fazer pagamentos de propina a agentes públicos, inclusive políticos.

“É possível afirmar essa origem é pública, porque o faturamento dessa empresa, quase 100%, era de obras públicas, diga-se, federal, estadual e municipais. A gente verificou que esses repasses tiveram o pico em anos eleitorais”, ressaltou Tácio Muzi, delegado da Polícia Federal.

A denúncia cita casos já investigados como prova do desvio de dinheiro público. Entre eles, fraudes em licitações do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) para obras em rodovias no Ceará e no Maranhão; a transposição de um rio que nunca aconteceu no estado do Rio de Janeiro; e a contratação da Delta sem licitação para obras no Parque Aquático Maria Lenk, Construído para o Pan e que vai ser usado na Olimpíada.

O Ministério Público diz que além do empresário Fernando Cavendish, diretores e até funcionários administrativos participavam do esquema pelo lado da empreiteira e que as empresas e os contratos eram criados por Carlinhos Cachoeira e os operadores financeiros Adir Assad e Marcelo Abbud.

Os investigadores foram até os endereços dessas empresas e não encontraram funcionários, nem as sedes, nem nada.

Essa investigação é um desdobramento de outras duas operações policiais e de uma CPI que investigaram, entre 2009 e 2012, as relações de Carlinhos Cachoeira com políticos e o envolvimento da construtora Delta. O MPF diz que o compartilhamento de provas com a Operação Lava Jato permitiu que o esquema fosse desvendado agora.

O Supremo Tribunal Federal autorizou o uso de trechos da delação de executivos da Andrade Gutierrez. O Ministério Público Federal diz que não pode falar sobre o conteúdo, mas o Jornal Nacional mostrou no mês passado que os delatores contaram que o ex-governador Sérgio Cabral cobrou propina das empresas que faziam parte do consórcio que reformou o Maracanã. A cobrança teria sido de 5% do valor total do contrato. A obra custou R$ 1,2 bilhão, R$ 480 milhões além do valor previsto, que era de R$ 720 milhões.

As investigações sobre quem foi beneficiado e quanto recebeu no esquema de lavagem de dinheiro vão continuar.

“Os beneficiários serão investigados. Alguns na força tarefa da Lava Jato do Rio, outros podem até nos desdobramentos da Saqueador. O foco da operação saqueador foi a lavagem de dinheiro, o que não quer dizer que os outros fatos não serão investigados”, afirmou o procurador da República Leandro Mitidieri.

O Ministério Público Federal pediu a condenação de todos os envolvidos pela prática de lavagem de dinheiro e associação criminosa, além da reparação dos danos causados em duas vezes o valor desviado.

A defesa de Fernando Cavendish declarou que tomará as providências judiciais contra o que chamou de “ilegalidade”, e que, num inquérito que tramita há mais de três anos, Cavendish sempre atendeu às solicitações da autoridade policial.

O advogado do ex-diretor da Delta Cláudio Abreu preferiu se pronunciar depois que tiver mais detalhes sobre as denúncias.

A Construtora Andrade Gutierrez declarou que mantém o compromisso de colaborar com as autoridades sobre os assuntos pertinentes à Lava Jato e que a empresa tem prestado todos os esclarecimentos devidos.

O ex-governador Sérgio Cabral disse que desconhece qualquer envolvimento do nome dele na Operação Saqueador e que jamais solicitou qualquer tipo de contribuição ilegal a qualquer empresa. Cabral disse ainda que o nome dele sequer foi citado na CPI de que decorre dessa investigação.

 

 

 

 

 

 

G1