Cabos eleitorais das ‘Casas de Marina’ fecham portas a Eduardo Campos

Cabos eleitorais das ‘Casas de Marina’ fecham portas a Eduardo Campos

Em 2010, cerca de 2.500 eleitores que queriam eleger Marina Silva presidente transformaram suas casas em pequenos comitês do Partido Verde e atuaram como cabos eleitorais junto a seus vizinhos. Neste ano, a campanha de Eduardo Campos (PSB), que tem Marina como vice, articula-se para reeditar o feito e mobilizar 5 mil casas — cerca de 300 só no Rio de Janeiro. O trabalho, no entanto, não deverá ser fácil.

Nos últimos dias, O GLOBO conversou com diversos responsáveis pelas “Casas de Marina” de 2010. Apenas um deles se disse disposto a encampar uma “Casa de Eduardo e Marina” neste ano. Para a maioria, a união da ex-senadora com o socialista pernambucano é o principal motivo de desmobilização.

Em 9 de julho de 2010, o carioca Flávio Minervino, então presidente da associação de moradores do Morro dos Prazeres, no Rio de Janeiro, adornou a própria casa com bandeiras e adesivos para receber Marina Silva. Por cerca de duas horas, passeou com ela pela comunidade e pediu votos para o PV. Na semana passada, explicava por que não pretende repetir a experiência neste ano:

— Eu abri minha casa. Consegui que a comunidade fechasse comigo em torno do projeto da Marina, fiz comercial para ela, mas, depois que ela foi embora, não tive retorno. Mandaram pouco material, pouco folheto, adesivo. Foi tudo para inglês ver.

Seria natural que a campanha de Campos e Marina voltasse a Minervino para reeditar o pequeno comitê carioca, mas ele diz que não foi procurado.

— E mesmo que fosse, não toparia — dispara. — A chapa dela agora é muito diferente...

‘NÃO DÁ MAIS’

A agente de turismo Francisca Pereira abriu sua casa em Maringá (PR) à Marina Silva em 2010. A então candidata à presidente passou vinte minutos no local, conversou com familiares e amigos e agradeceu a contribuição. Francisca fala sobre a simpatia dela naquela época, mas não está disposta a repetir o apoio:

— A Marina é vice de quem? Eduardo Campos? Nunca ouvi falar não. Aqui no Paraná a gente não sabe nada de Pernambuco. E não dá para abrir a casa para quem a gente não conhece, né?

Em São Paulo, a geógrafa Luciana Lopes também atrela sua adesão à necessidade de conhecer mais o pernambucano. Em 2010, ela fez sua “Casa de Marina” no Butantã. Agora, ainda “pensa sobre o assunto”:

— Estou tentando entender o quanto do projeto de sustentabilidade o Campos vai incorporar, porque essa é a minha bandeira. Quero olhar o plano de governo primeiro — diz.

Em Salvador, a jornalista e ativista do meio ambiental Liliana Peixinho é conhecida pelo apoio que deu à campanha presidencial de Marina. Agora, diz que “não dá mais”:

— Continuar trabalhando como ativista encantada, pagando para bancar sozinha uma estrutura de campanha para a Marina, não dá mais. Eu sou só uma operária da comunicação. Só trabalharia para a campanha dela junto com o Eduardo Campos se fosse contratada.

Mas, no Rio Grande do Sul, Sabrina Amaral faz o contraponto. Em 2010, ela articulou quatro “Casas de Marina” em Taquara, uma em Canela e três em Parobé. Neste ano, já garante uma — a própria:

— Os cartórios tiveram muita má vontade com a Rede. Eu mesma tive minha assinatura negada. Então não podemos deixar a proposta da Marina no limbo. Se o Campos encampou nossas propostas, está de bom tamanho. A gente continua apoiando.

O racha entre os marineiros é visível para integrantes do PV que participaram da campanha de 2010 e é fruto de um “desencantamento com Marina por ela ter feito uma parceria com Campos”. No anonimato, muitos marineiros entendem que a aliança de Marina é contra a política nova, independente e alternativa que ela pregava, especialmente na área do meio ambiente, da agropecuária e da indústria.

NO RJ, 50 CASAS MOBILIZADAS

Glauber Braga, presidente do PSB no Rio e peça-chave na articulação da campanha de Campos e Marina no estado, ainda acredita na mobilização das “Casas de Eduardo e Marina” e faz uma provocação:

— Mas em quem os marineiros vão votar? Na Dilma? No Aécio? Duvido. Eles vão ser conquistados pela campanha de televisão, quando conhecerem melhor o Campos.

Segundo Braga, a ideia é dobrar o número de residências envolvidas na campanha. A meta é chegar a 5 mil casas-comitês neste ano. No Rio, a mobilização deve atingir 300 pontos, mas, após um mês de campanha, há só 50 residências cadastradas.

— Não é tarde para fazer isso. Na comparação com outras campanhas, não estamos atrás. Não estamos lentos. Os comitês dos adversários também ainda não decolaram totalmente — destaca Braga.

 

O Globo