A vida com as drogas do brasileiro fuzilado na Indonésia

A vida com as drogas do brasileiro fuzilado na Indonésia

A adolescência de Rodrigo Muxfeldt Gularte ainda começava quando a mistura de drogas e bipolaridade apresentava seus efeitos.

Diz a mãe Clarisse, de 70 anos, que os sinais vieram aos poucos. "Ele tinha um comportamento razoável. Mas, com o passar do tempo, foi mudando as atitudes. E a gente quase não percebeu".

Foi esta combinação que, segundo a família, levou Gularte à viagem que terminou com sua condenação à morte na Indonésia, por tráfico de drogas.

Preso em 2004 com 6 kg de cocaína escondidos em pranchas de surfe, ele foi executado por fuzilamento na tarde desta terça-feira (horário de Brasília).

Natural de Foz do Iguaçu de uma família de classe média alta, Gularte teve o surfe como esporte preferido. Parentes e conhecidos falam de um rapaz alto, gentil e educado, mas envolvido com drogas desde jovem.

A infância foi "feliz e normal", disse a mãe. A BBC Brasil conversou com ela por telefone em fevereiro, enquanto visitava Gularte pela última vez na Indonésia. Disse que seu "coração sangrava".

As mudanças teriam começado aos 13 anos, mas pioraram quando os pais se divorciaram, diz a prima Angelita Muxfeldt, que esteve na Indonésia nos últimos três meses para tentar reverter a condenação do brasileiro.

O primeiro tratamento contra a dependência de drogas foi aos 16 anos, quando parentes dizem ter percebido indícios de bipolaridade. Outros viriam, sem sucesso.

A depressão, aliada ao uso de drogas, só fez Gularte piorar, conta Angelita.

Clarisse tentou ajudar o filho com trabalho. Gularte ganhou, por exemplo, um restaurante para administrar, pago pela mãe. Teve ainda um filho, com autismo, hoje com 21 anos, com quem pouco se relacionou.

Mas o contato com as drogas, de todos os tipos, continuou intenso.

A mãe e a prima visitaram o paranaense com frequência nos últimos dez anos. Com o pai, o médico Rubens, a relação foi só por cartas ou telefone, segundo a família.

Enredo de filme

A viagem que fez ao país asiático foi "uma tragédia", diz a mãe. A prima fala em "erro imenso". Para a família, ele foi aliciado por traficantes internacionais, que se aproveitaram dos seus problemas mentais.

O que aconteceu após sua prisão poderia virar filme.

Ao ser pego no aeroporto de Jacarta, estava com outras duas pessoas, que escaparam e voltaram ao Brasil. Gularte assumiu responsabilidade por toda a droga que era levada, segundo Angelita.

A mãe e a prima chegariam à Indonésia uma semana após a prisão. Um advogado se ofereceu para defender Gularte ainda no aeroporto.

"Nós ligamos para esse advogado, ele veio até o nosso hotel e perguntou: 'Vocês querem ver o Rodrigo?'", diz Angelita.

Era por volta das 21h, diz. "'Mas é possível?' eu perguntei. Ele deu um telefonema e disse: 'Vamos'. Chegamos na prisão, ele mandou o Rodrigo vir, o vimos e conversamos com ele. O advogado nos mostrou que era influente".

A família ficou impressionada. Pagou pelo advogado, mas ele fugiu com o dinheiro. Perdeu prazos e recursos e, no julgamento, não apareceu.

Na verdade, nem o advogado, nem representantes da embaixada brasileira, nem a família apareceram no julgamento. Segundo Angelita, eles não teriam sido avisados.

Sem defesa, diz a prima, Gularte foi condenado à morte em 2005. Depois disso, ainda tentaria suicídio na prisão.

Há três anos Gularte piorou, diz Angelita. No ano passado, parentes contrataram uma equipe médica para que examinasse seu estado mental.

O diagnóstico foi esquizofrenia paranóide, com delírios e alucinações. E a recomendação de que ele fosse transferido para um hospital psiquiátrico.

Mas o laudo não foi aceito pelas autoridades indonésias, já que os especialistas haviam sido contratados pela defesa.

Um novo exame, feito por um grupo diferente de especialistas aceito pelo governo, em fevereiro, confirmou o diagnóstico inicial.

Autoridades, então, ordenaram outra avaliação, feita em março, cujo resultado jamais foi divulgado, apesar de pedidos repetidos da família e do governo brasileiro.

Familiares dizem que há anos tentavam convencer Gularte a receber tratamento fora da prisão. Mas ele se recusava a deixar a ilha, dizendo não estar doente.

'Vozes de satélite'

O padre irlandês Carolus Burrows conheceu o brasileiro anos atrás, nas missas que celebrava na prisão. Ele foi escolhido para dar-lhe a extrema-unção e acompanhá-lo antes da execução.

Diz o padre que, nos últimos anos, Gularte passou a falar com "vozes de satélite e as paredes". As vozes alertavam Gularte de que a prisão é um local seguro e que, fora dali, ele poderia ser morto.

A prima cita também contos sobre "vidas passadas no Egito e histórias surreais" e que outros presos teriam medo de dividir a cela com ele.

Diz Angelita que Gularte, nos últimos meses, se recusava a tirar um boné, virado para trás, alegando ser sua proteção. Recentemente, teria perdido 15 kg, disse a mãe.

O rapaz teria demonstrado crer em clemência mesmo depois de ser notificado de sua execução, no sábado. Teria se negado, também, a fazer seus últimos desejos.

Gularte foi o segundo brasileiro executado na Indonésia. Em janeiro, o carioca Marco Archer Cardoso Moreira foi fuzilado após ser condenado à morte por tráfico de drogas.

A execução ocorreu em Nusakambangan, um complexo com sete prisões onde estão centenas de condenados por tráfico, assassinato e outros crimes. O local tem o apelido de "Alcatraz da Indonésia".

 

 

Agência de Notícias