AIDS e HIV crescem entre jovens de 15 a 19 anos na Paraíba e no Brasil e assusta especialistas

AIDS e HIV crescem entre jovens de 15 a 19 anos na Paraíba e no Brasil e assusta especialistas

A primeira vez a gente nunca esquece. Pois para o Renato (nome fictício), de 15 anos, a sua primeira experiência sexual será lembrada por ele por toda a vida. Ele vive em Sapé, e, em dezembro, em João Pessoa, foi acompanhado da mãe ao hospital Clementino Fraga, unidade de referência para o tratamento de AIDS e HIV na Paraíba, para fazer o teste de aids. Em detrimento da sua pouca experiência sexual, ele, aos 15 anos, apresentou reagente positivo. Renato tem AIDS.

Ele não é o único. Em 2014, na Paraíba, 14 casos de HIV positivo foram notificados. Renato foi um deles. O número de jovens que acaba contraindo a doença é cada vez maior. A chefe do Núcleo de DST/AIDS e Hepatites Virais da Secretaria do Estado da Saúde, Ivoneide Lucena está assustada. Ela diz que não esperava que o HIV fosse, com toda a informação disponível, atingir tantos jovens.

“Temos muitos casos de jovens sem sintomas que fazem o teste e descobrem um diagnóstico positivo. Esses jovens estão contando com a saúde uns dos outros. Eles vêem o corpo sarado, o estereótipo de beleza, mas se esquecem que isso não quer dizer nada”, destacou.

O caso de Renato é um exemplo disso, e é um alerta para quem acha que aparências não enganam. Ivoneide dá um dado alarmante sobre as pessoas que convivem com a AIDS sem saber que contraíram a doença.

“A gente avalia que para cada caso notificado, pelo menos outras dez pessoas possuem a doença mas não sabem. Em um universo de 6,5 mil casos notificados na Paraíba, temos a possibilidade de termos mais de 65 mil pessoas que, sem saber, podem estar passando a doença para a frente”, alertou.

A pergunta que muitos não se fazem é “quem é a pessoa com quem estou fazendo sexo?”. No caso dos encontros casuais, infelizmente, muitas vezes a camisinha é erroneamente dispensada. “Jovens gays está aumentando muito o número de pessoas com HIV. Não estão usando camisinha. Estão saindo para a balada e transando sem camisinha”, contou.

E qual o motivo deste comportamento?

“Muito por conta do fato de que hoje a doença é considerada crônica, como diabetes, pressão alta. A imagem que os jovens têm em sua mente é de que é possível enfrentar a AIDS como se enfrenta uma gripe. Não pensam que os medicamentos apresentam sintomas colaterais fortíssimos”, explicou.

Marco Antônio (nome fictício) sabe muito bem o mal que, não a doença, mas os remédios lhe fazem. “ Tem épocas em que tenho diarréias constantes, de não conseguir sair de casa. Estou sempre fazendo exames cardíacos. Tenho muito medo de ter um infarto ou algum outro problema pior. Quem vive tomando o coquetel vive com medo. Medo de câncer, medo de ataques do coração”, revela.

Além do aumento da probabilidade de problemas cardíacos e de câncer, os medicamentos também são responsáveis por distrofia muscular. Isso leva muitos portadores à academia, para tentar se manter íntegros, sem tanta perda.

Ainda há aqueles que chegam a achar que, com o avanço dos medicamentos, a AIDS não mata mais. “Isso é um erro. Em 2014 foram 111 mortes. Em 2013, 110. Isso é um número altíssimo. Quase 2% da população portadora do vírus da AIDS morre por ano por conta da enfermidade. A doença ainda mata, não tem cura e não está na testa de ninguém”, explica Ivoneide.

Outros casos acontecem por falta de conhecimento. Foi assim com o Renato. Diante da notícia de que era soropositivo, questionado sobre o que sabia sobre a AIDS, ele explicou que nunca tinha lido nada sobre o assunto.

“Eu vou ter aula de educação sexual neste ano na escola. Até o ano passado eu mal sabia como contrair. Não sabia que estava correndo o risco de adquirir a AIDS”, lamentou o jovem.

Estatísticas enganadoras

Quem vê as estatísticas do número de casos de AIDS notificados no serviço público pode se enganar, achar que a doença recrudesceu do ano passado para este ano. Nos meses de janeiro e fevereiro de 2014, 87 casos foram relatados contra 34 no mesmo período em 2015. Ivoneide, no entanto, explica que esta diferença é consequência de uma mudança no sistema  de notificação. Antes só eram relatados os casos de AIDS. Pessoas que contraíram HIV mas não desenvolveram a doença não entravam na estatística. Agora mudou. Com esta mudança muitos casos ainda não foram relatados. A centralização destes dados se dá nos hospitais Clementino Fraga e Hospital Universitário Lauro Wanderley. Só que o HU ainda não entregou suas contas, que, segundo Ivoneide, são muito mais altas do que os casos contabilizados até agora.

“O HU tem um grande montante que ainda não foi passado. Não está no sistema, está em fichas. A partir de agora, até o final de março, teremos a renovação destes números, e eles vão surpreender”, revelou.

Os casos notificados crescem a cada ano. “O número de casos relatados está aumentando. As pessoas estão tendo mais acesso aos diagnósticos rápidos. Ainda falta muito a ser notificado, é verdade, mas estamos avançando. O objetivo é implantar o teste em todos os setores. Para as pessoas começarem a ser diagnosticadas”, contou.

Renato se entristeceu pela doença, mas ficou mais preocupado com a própria mãe. Ela sim tem plena noção do risco que o jovem corre todos os dias por conta da doença. “Ela está angustiada. Sou seu único filho. Ela vive triste. Para ela é como se eu tivesse recebido uma pena de morte”, concluiu.
 
 


João Thiago