2 em 3 reduziram o uso de crack após passar em ação de Haddad, diz estudo

2 em 3 reduziram o uso de crack após passar em ação de Haddad, diz estudo

A maior parte é homem, não terminou o ensino fundamental, passou pela prisão, já fez algum tratamento para o vício e, após ingressar no programa municipal para tratamento do uso de crack, diminuiu o consumo de drogas.

Contestado por representantes do governo paulista, que não veem efetividade no modelo, o Braços Abertos –implantado em janeiro de 2014 pela gestão Fernando Haddad (PT) na região dacracolândia, no centro de São Paulo– foi avaliado por uma pesquisa da Plataforma Brasileira de Política de Droga.

Financiado pela Open Society, organização fundada pelo megainvestidor George Soros, 85, o estudo aponta que a iniciativa atinge seus objetivos ao resgatar a cidadania dos usuários e ao conseguir que eles reduzam o consumo da droga.

Foram colhidos o depoimento de 80 beneficiários da ação. À época, o total era de 370, hoje são cerca de 500. De acordo com os resultados, 58% são homens, 79% tem pelo menos o ensino fundamental completo ou incompleto e 67% reduziram o uso de crack após ingressar no programa.

Para 95% dos entrevistados, o Braços Abertos teve impacto positivo ou muito positivo em suas vidas. Antes de fazerem parte da ação, 51% deles já haviam realizado algum tipo de tratamento –32% haviam sido internados em clínicas para atenção em álcool e drogas.

O Braços Abertos trabalha a ressocialização dos dependentes a partir do conceito de redução de danos. A ação incentiva o usuário a reduzir o consumo e a aumentar sua autonomia, sem internação, pela oferta de emprego e moradia (os participantes ganham R$ 15 por dia por serviços como varrição e reciclagem). O programa da gestão Geraldo Alckmin (PSDB), Recomeço, recorre a tratamentos que incluem internações.

Paulo Gomes/Folhapress

Moradores de rua colocam lixo como barricada para impedir ação da polícia

Como a Folha mostrou, os modelos do Estado e da prefeitura –independentes e parcialmente antagônicos– pouco conversam entre si. Não há compartilhamento oficial de dados e informações sobre os beneficiários.

Para o antropólogo e consultor do levantamento, Maurício Fiore, ao mostrar que a maior parte dos beneficiários já passou por internações, a pesquisa revela a importância da existência de métodos complementares na região. "[O estudo] mostra que não pode ter uma estratégia só", diz. "A efetividade [da internação], em geral, é baixa. A literatura mostra isso. Se você considerar a abstinência como sucesso, os estudos mostram taxa de 20% a 30%, e para um período determinado."

O perfil dos beneficiários do programa também mostra fragilidades sociais para além da falta de escolarização. Entre os entrevistados, 25% afirmam ter passado pelo sistema socioeducativo na adolescência e 66% disseram terem sido presos ao menos uma vez. As causas mais frequentes foram: furto e roubo (67%) e tráfico de drogas (36%).

Segundo Fiore, os dados qualitativos apontam para uma lógica de encarceramento sem acesso a tratamentos a essa população. "Estamos tratando essas pessoas com a prisão", afirma o antropólogo.

A iniciativa da prefeitura reserva vagas em hotéis para os beneficiários. A qualidade desses quartos e a localização dos próprios hotéis, porém, foi considerada regular ou péssima por 49% dos entrevistados. Após a avaliação, a prefeitura começou a retirar as pessoas desses locais.

Essa mudança e outras, como passar a gestão dos hotéis para os agentes municipais e diversificar as opções de trabalho para os beneficiários do Braços Abertos são recomendadas pelos pesquisadores.

 

 

Folha de São Paulo