A rotina das adolescentes na casa que acolheu X., vítima de estupro coletivo no Rio

A rotina das adolescentes na casa que acolheu X., vítima de estupro coletivo no Rio

Aos 13 anos, L. ainda brinca de bonecas. Parece querer recontar a infância perdida nas ruas. Na Casa Viva, instituição que abriga adolescentes usuárias de drogas, os relatos de violência, abuso sexual e abandono convivem com chupetas — há meninas de 13 anos que ainda usam objetos para bebês —, corações desenhados nos cadernos e sonhos comuns a jovens da idade, como ser aeromoça.

Foi à instituição que X., vítima de estupro coletivo em maio, no Morro do Barão, na Zona Oeste, chegou no dia 5 de agosto de 2014 conduzida por um oficial de Justiça e a mãe. Ficou apenas dois dias

Entre as dez meninas que hoje vivem na Casa, onde são desenvolvidos trabalhos para ressocialização e melhora da autoestima das jovens, o caso de X. é uma exceção. Para a maioria, as paredes do casarão situado na região da Penha (X. foi abrigada na sede de Jacarepaguá, hoje desativada), significam proteção. E a família que jamais tiveram. Só 15% das meninas relatam vínculos familiares.

Filha de uma família de classe média, X. começou a usar drogas aos 12 anos com amigos do colégio
Filha de uma família de classe média, X. começou a usar drogas aos 12 anos com amigos do colégio Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Entre períodos de abstinência e recaídas nas drogas, Y., de 15 anos, já vive há três anos na casa, como chama a instituição. Para as assistentes sociais, se passasse todo esse tempo nas ruas, talvez não tivesse sobrevivido.

Sua história resume o calvário das meninas que hoje circulam entre as bocas de fumo das favelas, vulneráveis à violência e ao abuso sexual. Fumou maconha pela primeira vez aos 6 anos. A droga foi dada pelo irmão, de 18. Sua primeira relação sexual aconteceu aos 9. Y. relatou ter sido abusada sexualmente dentro de casa e obrigada a se prostituir. Hoje, na escola, ela tenta reconstruir sua adolescência. Está namorando. Mas sem relações sexuais.

— Aos 6 anos, eu já usava loló. Ficava andando pelos becos e os bandidos me mandavam voltar pra casa. Hoje, nem faz mais efeito. Com meu namorado, só ficamos. Ele senta do meu lado. Damos beijinhos — conta, ensaiando um sorriso infantil.<EP,1>Do que mais sentiram falta em toda a vida?

— Atenção, tia. Atenção da minha mãe. Mas não quero falar disso não — diz outra menina.

E um silêncio cala todas.

Ato da ONG Rio da Paz na praia de Copacabana: protesto contra os abusos sofridos pelas mulheres
Ato da ONG Rio da Paz na praia de Copacabana: protesto contra os abusos sofridos pelas mulheres Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Uma nova perspectiva de mundo

Dentro da casa, as meninas se unem como se pertencessem à mesma família. Navegam na internet, dividem segredos, reclamam, rindo, da bagunça no banheiro e apontam a “responsável”. Aos poucos, vão se unindo numa travessia difícil: a abstinência das drogas.

Para o subsecretário municipal de Desenvolvimento Social, Rodrigo Abel, criar esse vínculo é fundamentar para o projeto.

— Quando escutamos essas adolescentes, fica claro que as apostas a serem feitas passam essencialmente por um lugar de acolhida, seguro, onde os muros não sejam barreiras à liberdade. A casa tem que ser o ponto de partida e de chegada. Antes de reprimir, precisamos compreender que é necessário apresentar a elas uma nova perspectiva de mundo.

Vida nas ruas

«Aos seis anos, eu já usava loló. Ficava andando pelos becos e os bandidos me mandavam voltar para casa. Hoje nem faz mais efeito em mim» Y, 15 anos.

«Já apanhei muito de homem. Ele roubava carro e dizia que, se eu fugisse, me matava e me enterrava», J., 16 anos.

 

 

 

 

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