CNBB vai aplicar orientações do papa em visita ao Brasil

07/08/2013 21:54

SÃO PAULO - O arcebispo de Aparecida, cardeal d. Raymundo Damasceno Assis, informou que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da qual é presidente, vai publicar em livro a íntegra dos discursos e homilias pronunciados pelo papa Francisco em Aparecida e no Rio de Janeiro e refletir, este mês, em reunião do Conselho Episcopal Pastoral, sobre o conteúdo das mensagens para a Igreja aplicar suas orientações no País.

D. Raimundo Damasceno abraça o papa Francisco em Aparecida - Stefano Rellandini/Reuters
Stefano Rellandini/Reuters
D. Raimundo Damasceno abraça o papa Francisco em Aparecida

O cardeal salientou, em entrevista aoEstado, a clareza e objetividade com que Francisco abordou questões delicadas, sem fugir a nenhuma pergunta nas entrevistas que deu à Rede Globo e aos jornalistas que o acompanharam no voo de volta a Roma. O respeito aos homossexuais, a acolhida aos casais divorciados, a valorização da mulher e a urgência de a Igreja ter espírito missionário e sair da sacristia em busca das pessoas foram, na avaliação de d. Damasceno, pontos importantes do ensinamento do papa.

Como o senhor analisa a entrevista do papa Francisco no voo de volta a Roma?
Tanto nessa entrevista como em outras entrevistas que deu, não foram muitas, o papa Francisco foi muito objetivo. Ele responde as perguntas, não usa subterfúgios, é muito direto, é compreensível na resposta. Creio que chama a atenção, ao tratar dos problemas que a Igreja enfrenta, o fato de falar das questões de maneira não negativa. Do ponto de vista do conteúdo das respostas às questões colocadas, ele não alterou o conteúdo. Mas, da maneira como ele coloca, sempre tem um enfoque muito pastoral, tendo sempre em vista o bem das pessoas, a missão da Igreja, que é se colocar a serviço das pessoas e da sociedade. Sempre se coloca numa atitude não recriminatória, não condenatória, mas de maneira positiva. Em seus pronunciamentos, o papa Francisco vem insistindo muito que a Igreja deve ser um sinal, um sacramento da misericórdia, do amor de Deus para com as pessoas.

Na entrevista, o papa disse que não se pode discriminar os gays.
O papa não fugiu da pergunta. Repetiu, de certo modo, como a Igreja deve relacionar-se com essas pessoas. Deve acolhê-las e respeitá-las. É contra toda forma de discriminação.

Esse respeito implica aprovar a união ou casamento entre homossexuais?
O papa destaca, em outros pronunciamentos, que o casamento para nós é sempre a união entre um homem e uma mulher. Uma união estável e permanente, sempre fundamentada no amor, uma união aberta à vida O que não significa que não vamos acolher ou que vamos discriminar essas pessoas. Cada pessoa, se é católica, deve procurar crescer espiritualmente e buscar Jesus Cristo. A opção da pessoa nós temos de respeitar e não discriminar de forma alguma.

Pelo que disse o papa, o senhor acha que haverá mudanças na pastoral com relação aos casais em segunda união?
A Igreja tem trabalhado na pastoral com os casais em segunda união. Em muitas dioceses há encontros para o atendimento a esses casais. Não esquecemos, não abandonamos, aqueles que, por uma razão ou outra, desfizeram a primeira união, seja consensualmente, seja conflitivamente, e recomeçaram a vida com nova união. Temos de estar atentos a essas pessoas. Embora não comunguem, não possam participar da eucaristia, como disse o papa também, podem obter uma declaração de nulidade da união. Voltam então à situação normal na Igreja, podem confessar-se e comungar, participar de todos os sacramentos. Quando não conseguem isso, não recorrem ao tribunal (eclesiástico, para obter a declaração de nulidade), essas pessoas podem participar de outras atividades e ser objeto de atenção muito especial da Igreja. É muito melhor a pessoa viver a segunda união de maneira estável, responsável, em paz e realizada, do que fazer tudo para viver a primeira união em conflito permanente. Isso acontece até com certa frequência. A Igreja deve acolher essas pessoas, orientá-las a recorrer ao tribunal, caso desejem, pois têm direito a esse recurso. Não podem ser condenadas e abandonadas. É preciso criar espaços, pois há outros meios de participar da vida da Igreja, como a oração, a leitura da Bíblia, a atuação em obra social, a colaboração na paróquia.

O senhor participou do encontro do papa com os bispos do Conselho do Episcopado Latino-Americano (Celam ), no qual ele advertiu que a Igreja está atrasada nas relações das paróquias com os fiéis. Foi um puxão de orelhas, não?
A gente teve a oportunidade de ouvir o papa na reunião com os bispos do Brasil e com os bispos do Celam em dois encontros. O papa chamou a atenção para o espírito da Conferência de Aparecida, procurou chamar a atenção para o que o Documento de Aparecida está dizendo para a Igreja de hoje. Ele lembrou que Aparecida não termina com um documento, mas se prolonga na missão continental. O papa foi muito feliz ao dizer que a missão continental se projeta em duas dimensões - a dimensão programática e a paradigmática. Programática são as atividades que a Igreja vai realizando, as visitas às casas, missões populares, retiros, encontros, formação de leigos, que são atividades missionárias. A dimensão paradigmática é colocar em chave a atividade permanente, a atividade cotidiana das dioceses e das paróquias. Aparecida pede que avaliemos a Igreja, suas estruturas, seus recursos humanos e financeiros, suas realizações e suas atividades, sempre em chave missionária, isto é, como essa Igreja está a serviço da missão. Isso é que é fundamental, o papa está chamando a atenção para isso. As energias devem estar voltadas para isso. O papa está chamando a atenção para a necessidade de impregnar a nossa Igreja, a nossa organização, as nossas estruturas, com esse espírito missionário. A consequência será a mudança das estruturas. O papa falou que são caducas e muitas delas não se renovam se não houver esse espírito missionário, essa ótica. A Igreja existe, como já dizia Paulo VI, para a missão, para evangelizar. Se não faz isso, não tem razão de ser. O papa tem batido nisso muito forte, a Igreja a serviço do mundo e não o mundo a serviço da Igreja nesse sentido, o papa pede aos bispos que façam que suas igrejas locais (dioceses) e as paróquias sejam missionárias.

Qual é o papel dos leigos nessa Igreja missionária, segundo o papa?
A Igreja tem de abrir espaço para os leigos. Não podemos clericalizar os leigos e os leigos não podem se deixar clericalizar. O papa chamou a atenção para isso.

E o espaço para a mulher?
A mesma coisa. Espaço para o leigo, homem ou mulher, nos conselhos pastorais e administrativos nas paróquias e nas dioceses. O papa disse que, quando era arcebispo de Buenos Aires, percebia que as paróquias não tinham seus conselhos. Nisso estamos atrasados. Francisco advertiu que não basta abrir as portas das igrejas, mas que é preciso sair em busca das pessoas. É o espírito missionário. Missão significa ser enviado ao encontro das pessoas. Paróquias missionárias são aquelas que se preocupam não só em acolher as pessoas e prestar um serviço, como agências prestadoras de serviço, mas em sair ao encontro das ovelhas. Como disse o papa, o pastor tem de sentir o cheiro das ovelhas, conhecer o seu povo, ser solidário com seu povo, sobretudo com os mais pobres. O papa tem insistido muito nesse ponto. Não só os pobres de bens materiais, mas também no sentido religioso.

O que a CNBB vai fazer para tirar os frutos dessa visita do papa?
Nós vamos publicar todos os discursos do papa. Depois, vamos fazer uma avaliação das mensagens do papa na próxima reunião do Conselho Episcopal Pastoral, agora em agosto. Tanto da visita a Aparecida como no Rio. Vamos aprofundar os pronunciamentos aos bispos do Brasil e do Celam, assim como a homilia feita na catedral. Vamos refletir sobre o que podemos acentuar na ação evangelizadora da Igreja no Brasil.

O papa chamou o arcebispo do Rio, d. Orani Tempesta, de cardeal. Foi um lapso ou foi intencional?
É difícil interpretar o que o papa tinha em mente ao chamá-lo de cardeal. D. Orani é o arcebispo do Rio de Janeiro, que tem sido tradicionalmente uma sede cardinalícia. Pode ser um sinal de que num próximo consistório ele seja indicado cardeal.

Fonte: Estadão